Direitos Humanos

Torturar o torturador; Assassinar o assassino. O que você acha?


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Por Douglas Belchior

 

Não concordo.

Por mais que ele “mereça”.

Por mais que desejasse esquartejá-lo se uma de suas vítimas fosse uma das minhas filhas ou alguém que eu amasse. Ainda assim, apesar de compreensível, não estaria certo.

Eu não com concordo com a tortura ao torturador. E não concordo com o assassinato do assassino.

Por que eu não sou ele!

Essa é minha opinião em relação ao assassinato do Coronel Paulo Malhães, agente das forças da repressão durante os anos da ditadura civil-militar entre 1964 e 1985, assassino e torturador confesso.

Para ser coerente com a postura de defesa dos direitos humanos, preciso lamentar a morte do torturador.

Foi acerto de contas por parte de grupos ligados a resistência à ditadura? Foi vingança por parte de família e amigos de algum torturado? Não acredito. É mais razoável imaginar que se trata de uma ação com a intenção de intimidar possíveis futuros delatores das atrocidades cometidas pelas forças oficiais do Estado durante os anos da repressão.

Mas, quero tratar aqui da mensagem que fica: A ideia da justiça feita pelas próprias mãos. Assassinatos, torturas, desaparecimentos e linchamentos cada vez mais frequentes e banalizados, a começar pela ação das polícias, cujos exemplos não faltam. E que agora se vê promovido por “populares”.

O discurso fascista se fortalece: “É a ausência da lei! Bandido faz o que quer e a população se sente desprotegida. A tendência é que façam justiça com as próprias mãos!”

Pior é que pega. O fascismo é fascinante. E pedagógico.

Certa vez uma aluna me procurou em sala de aula pra dizer: “professor, eu não gostava de ler. Mas você faz sempre tantas perguntas. Deixa a gente confusa com nossas próprias opiniões. Eu tinha certeza que era contra a redução da idade penal, mas depois das suas aulas, fui ler, pesquisar… e achei um texto que eu trouxe aqui pra gente discutir na sua aula, olha…”

Era um texto que explicava a origem da lei de talião.

Dias depois fizemos o debate em sala de aula. Não foi fácil: “Mas eu acho justo professor. Se matou, tem que ser morto. Já pensou se fosse sua filha?”.

Mas quem mata o assassino não se transforma em assassino também? – perguntei.

“Mas professor, tem que ser igual na cadeia, se estuprou, tem que ser estuprado!”

Mas quem estupra o estuprador não é criminoso também? – retruquei.

E então, a pérola daquele dia:

“Professor, é só construir uma máquina de estuprar! Assim, não precisa de alguém pra castigar o estuprador!”

Era uma turma de primeiro ano de ensino médio. Adolescentes entre 14 e 15 anos.

Terminei dizendo:  Em vários momentos nós, na hora da raiva, da revolta, teremos vontade de matar, de devolver na mesma moeda, afinal, somos seres humanos e as vezes agimos por impulso, por emoção. Mas o Estado, o Governo e a Lei não pode fazer agir assim. Isso porque sua função é proteger a vida e dar o exemplo.

E bateu o sinal. Terminou a aula.

Foram todos para suas casas. Para a vida real.

Parte deles passariam a tarde com Marcelo Rezende e Datena.

E diante da tela, Luanda de 9 anos comenta: “Pai, o homem matou outro, tipo como se fosse igual nos filmes!”.

É filha. Como se fosse igual nos filmes.

Mas é real.

 

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