Cultura Escrita da história

Taís Araújo e Lázaro Ramos estreiam “O topo da montanha” no Rio de Janeiro

Foto Juliana Hilal

Diferente, revelador e profético

Peça estréia neste dia 20/01, sexta-feira, às 20h e ficará em cartaz até 19/02, às sextas e sábados às 19h e domingos às 18h, no Teatro Sesc Ginástico – Av. Graça Aranha, 187, Centro do Rio

Por Douglas Belchior

O espetáculo O Topo da Montanha, adaptação do texto de Katori Hall, dirigida por Lázaro Ramos, produzida e protagonizada por ele e Taís Araújo, faz sua estréia na cidade do Rio de Janeiro neste próximo dia 20 de Janeiro, feriado de aniversario da cidade, no Teatro do Sesc.

Como águas turbulentas ante a calmaria de um riacho; como um debate entre a sagaz sede de justiça e a paciência histórica, própria dos grandes sábios, assim é o encontro entre o imponente líder Martin Luther King e a humilde camareira Camae, num texto incrível e surpreendente, brilhantemente interpretado pelo casal mais emblemático do empoderamento negro atual.

Você é negra? Você é negro? Então deve assistir!

Sim, brancos de boa de vontade devem assistir também. Mas é certo que para negras e negros que lotaram as apresentações em São Paulo, Paraná, Minas Gerais e Bahia, o significado de estar ali em comunidade e experimentar este texto e esta interpretação é algo diferente, revelador e profético. Uma experiência magistralmente descrita pela jornalista e militante do movimento negro Ana Flávia Magalhães Pinto, em suas Notas a partir do lugar de público negro, já publicado por este Blog e que recupero abaixo. Vale a pena ler. Vale a pena assistir.

Depois nos diga se aceita o bastão.

 

Foto Juliana Hilal

Notas a partir do lugar de público negro

Por Ana Flávia Magalhães Pinto*

 

Longe de ser uma crítica de arte, escrevo a partir tão somente do lugar de público. Mas não apenas público, substantivo carente de materialidade. Falo como integrante do público negro, um conjunto de espectadores/as comumente subestimado ou até muito sonhado, porém tido como distanciado das salas de teatro, cinema, galerias, etc., por razões que dialogam com as violentas e sofisticadas práticas de exclusão sociorracial.

Faço isso porque acredito sinceramente que, afora autoras/es, obras e críticos/as especializados/as, o público é também fundamental para que a arte exista. E nós, público negro, não só existimos, mas também, tal como aconteceu na noite do último sábado (10), podemos nos fazer presentes em quantidade e qualidade!

Estou me referindo à experiência de assistir à peça O Topo da Montanha, uma adaptação do texto de Katori Hall, dirigida por Lázaro Ramos, produzida e protagonizada por ele e Taís Araújo, que estreou no Teatro Faap, São Paulo.

Eu e um casal de amigos nos dirigimos a essa casa localizada no elegante bairro de Higienópolis bem achando que seríamos a famigerada limitada cota negra entre uma maioria de espectadores brancos. Diferentemente do previsto e como chegamos cedo, pudemos nos deliciar ao ver a entrada de seguidos pequenos grupos de amigos, famílias, casais e homens e mulheres solitárias de pele escura, cabelo crespo e com umas caras de contentamento indisfarçável! As pessoas estavam gostando de se ver ocupando aquele lugar!

De todo modo, é preciso dizer que essa não foi a primeira vez que vi isso acontecer. Na verdade, observo esse fenômeno se repetir cada vez com mais frequência e intensidade nos últimos anos. Considero que eu mesma sou prova disso. Ouso até especular se a incorporação das cotas raciais ao debate público já não está servindo para catalisar a expansão dos limites da participação negra em outros espaços… É, pode ser, mas isso é assunto para outro texto.

Por ora, é melhor continuar no Topo da Montanha. Aliás, a escolha desse texto é, por si, um grande presente, sobretudo para nós, público negro. Em tempos de marchas em defesa da vida da população negra no Brasil , o que inclui aproximações e conflitos de natureza variada , recuperar a trajetória de Martin Luther King a partir do registro de múltiplas dimensões da vida humana serve como uma boa oportunidade para se refletir como temos encaminhado nossas práticas de resistência ao que nos oprime. O reconhecimento da confluência entre medo e esperança, egoísmo e altruísmo, vaidade e humildade num sujeito emblemático como King é, de fato, uma das várias qualidades da escrita de Katori Hall.

Natural de Memphis, Tennessee, ela é uma jovem escritora negra, de 34 anos, formada em instituições de renome como Columbia e Harvard, tendo sido a primeira mulher negra a receber o prêmio Laurence Olivier de melhor peça estreante, em março de 2010, por The Mountaintop, título original em inglês. Para além dos títulos acadêmicos e prêmios, vale mesmo a pena acompanhar a trajetória de Katori por sua capacidade criativa. Atualmente, ela está trabalhando em seu primeiro filme de curta metragem, Arkabutla, que fala sobre relações familiares e racismo.

Outras escolhas feitas para o espetáculo também nos convidam a reconhecer e destacar mais um punhado de talentos negros do teatro. A consultoria dramática e cênica é assinada por Ângelo Flávio. Ator, dramaturgo e diretor, ele é um dos expoentes do teatro negro brasileiro, fundador da Cia Teatral Abdias Nascimento (CAN) na UFBA, em 2002, e responsável, entre outras, pela montagem da peça A casa dos espectros (2006), a partir da obra Funnyhouse of a Negro (1964), de Adrienne Kennedy, outra escritora afro-estadunidense.

O figurino é de Tereza Nabuco, artista que há anos atua em produções da Rede Globo. O desenho de luz, recurso fundamental para a garantia da dramaticidade do espetáculo, está sob os cuidados do experiente iluminador cênico Valmyr Ferreira. Afora diversos trabalhos no teatro, Ferreira assinou a iluminação da exposição “Abdias Nascimentos 90 anos Memória Viva”, no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, 2004.Por sua vez, o cantor, ator, pianista, compositor e arranjador Wladimir Pinheiro assina a Trilha Original. Até bem recentemente, Wladimir esteve em cartaz com a peça Ataulfo Alves – O Bom Crioulo, dirigida por Luiz Antonio Pilar, no Teatro Dulcina do Rio. Bem que essa também poderia circular por outras cidades.

Somado a tudo isso, a interpretação da dupla Taís Araújo e Lázaro Ramos é capaz de emocionar ainda mais. Além de sustentarem muito bem o dinamismo das falas e do encaminhamento dado ao toque de inusitado fantástico da narrativa (tem que ir para entender!), os atores são capazes de garantir muito sentido até para os momentos de silêncio.

A performance de Taís, em especial, está digna de todos os aplausos de pé ao final. Vendo a maturidade de sua interpretação, foi impossível não lembrar do discurso de Viola Davis ao receber o Emmy 2015 de Melhor Atriz: “A única coisa que separa mulheres de cor de qualquer outra pessoa é oportunidade. Você não pode vencer o Emmy por papeis que não existem”. E mais uma vez livre de sabotagens, Taís Araújo se mostra uma gigante no palco. A atuação de Lázaro Ramos não deixa por menos. O brinde extra é perceber que o homem está jogando tão bem em tantas áreas!

Apagam-se as luzes, vem aquela sensação de quero mais! E, assim, ir ao teatro firma-se como algo que faz muito sentido para a vida, mesmo que isso implique reorganizar as finanças da semana ou do mês! É isso, o teatro também é nosso lugar, público negro!

 

* Ana Flávia é Doutora e mestre em História, jornalista, ativista do Movimento Negro, autora do livro “Imprensa negra no Brasil do século XIX” (Selo Negro, 2010)

 

SERVIÇO

O TOPO DA MONTANHA

Estreia: 20/01/2017 (sexta-feira), às 20h
Temporada: 21/1/2017 a 19/02/2017, sextas e sábados às 19h e domingos às 18h
Teatro Sesc Ginástico (513 lugares): Av. Graça Aranha, 187, Centro. Tel.: (21) 2279-4027
Ingressos: R$6 (Associados Sesc), R$ 12 (para jovens até 21 anos, estudantes e maiores de 60 anos) e R$ 25 (inteira)
Bilheteria: de terça-feira a domingo, das 13h às 20h
Aceita cartões de débito e crédito
Os ingressos serão gratuitos para o público inscrito no PCG – Programa de Comprometimento e Gratuidade
Classificação: 12 anos
Gênero: Comédia Dramática
Duração: 90 minutos

Promoções:
– AVIANCA: 30% de desconto sobre a inteira para clientes e funcionários devidamente identificados + um acompanhante.
Descontos não cumulativos

FICHA TÉCNICA

Texto de Katori Hall
Direção de Lázaro Ramos
Codireção de Fernando Philbert
Tradução de Silvio Albuquerque
Consultoria Dramatúrgica de Angelo Flávio
Assistência de direção Thiago Gomes.
Com Lázaro Ramos e Taís Araújo
Voz Inicial da Mãe de Martin Luther king de Léa Garcia
Preparação vocal de Edi Montecchi
Cenografia de André Cortez
Assistência de Cenografia de Carmem Guerra
Construção Cenário de Ono Zone Estúdio/ Fernando Bretas e Waldir Rosseti
Iluminação de Walmyr Ferreira
Assistência de Iluminação de Marcos Freire
Figurinos de Teresa Nabuco
Trilha sonora de Wladimir Pinheiro
Desenho de Som de Laércio Salles
Projeções de Rico Vilarouca e Renato Vilarouca
Fotos de estúdio de Jorge Bispo
Fotos de cena de Valmyr Ferreira e Juliana Hilal
Projeto gráfico da Dorotéia Design, Adriana Campos e Tamy Ponczyk
Revisão de Regina Stocklen
Serviços de camareira de Solange Carneiro
Contraregragem de Fabiano Motomoto
Operação de luz de Kadu Moratori
Operação de som e projeção de Fernando Castro
Serviços técnicos de projeção de Bruno Mattos
Supervisão técnica de projeção de Alexandre Bastos – Novamídia
Assistência técnica e de produção de Igor Dib
Assistência de administração de Jandy Vieira
Administração Lei Rouanet de Thiago Oliveira
Produção executiva e administração de Viviane Procópio
Administração geral de André Mello
Direção de produção de Radamés Bruno
Produção da BR Produtora
Produtores associados André Mello, Lázaro Ramos e Taís Araújo
Transportadora Oficial: Avianca

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