Cultura

Romário quer transformar Hip-Hop em mercadoria

Por Douglas Belchior

A cultura do Rap foi uma Escola para muitos de minha geração, adolescentes nos anos 90. Digo Escola no sentido de correntes de pensamento que podem ser entendidas como laços que se constroem para criar e propagar ideias novas.

Assim como existem Escolas de pensamentos e estudos psicológicos como a de Jean Piaget e Freud, ou Escolas de pensamentos filosóficos como a Socrática ou Iluminista ou ainda Escolas de pensamentos econômicos como Keynesiana ou a Neoclássica e também Escolas de pensamento jurídico como a do Sociologismo de Augusto Comte, a Escola da Exegese ou a Corrente crítico-dialética do direito, entendo que há escolas do pensamento social brasileiro e uma delas, a mais importante para a minha geração, é a Escola da Cultura Hip-Hop.

Gog, Racionais, RZO, Facção Central, Face da Morte, DMN, Rappin Hood, pra citar só alguns, são verdadeiras escolas de pensamento social que influenciaram milhões de jovens brasileiros. Dexter, Max B.OFantasmas Vermelhos, Posse Hausa, Rahssan, Influência Positiva, Marcelo Cavanha, Claudinho Silva, Z’áfrica Brasil, entre outros, são algumas das referências atuais que mantém o Hip-Hop como uma cultura de resistência que se forma e se capacita no cotidiano de pobreza e da violência impostas pelo Estado às periferias, morros e palafitas em todo país.

E agora vem o Deputado Romário propor a regulamentação de profissões relacionadas à prática da cultura Hip-Hop e estabelecendo, entre outras coisas, a necessidade de um curso técnico para que o militante do Hip-Hop seja reconhecido como tal!

Ora, faça-me o favor Romário! Que tal legislar sobre algo que realmente entende, hein? E que tal ler, abaixo, a brilhante análise de Juninho – militante do Círculo Palmarino -, sobre o tema?

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Por Blog do Juninho

Herdeiro da Black Music e fruto da junção de quatro elementos originais – Música (Rap), Discotecagem (DJ), Dança de Rua (Soul Funk, Locking, Popping Breaking) e as Artes Visuais (Graffiti Spraycanart), a cultura Hip Hop surge na década de 70 na cidade de Nova Iorque, EUA, como uma expressão de jovens negros periféricos e logo se espalhou pelo mundo.

Em nosso país, no início da década de 80, começam a surgir os primeiros grupos de Break (dança de rua) que passam a ocupar as ruas do Centro de São Paulo, como a Rua e o Largo São Bento e a partir dessa movimentação começam a surgir também os primeiros MC’s (Mestre de Cerimônia) e os grafiteiros que depois migraram para a Praça Roosevelt.

Logo o movimento passou a se articular através das Posses, com o papel de articular as produções artísticas, como também o papel político de promover ações comunitárias e fazer a reflexão das condições da periferia, particularmente do povo negro.

Essa geração que deu origem ao Hip Hop no Brasil é formada por jovens, na grande maioria negros e moradores de bairros periféricos, expostos diretamente às tensões sociais provocadas pelas profundas desigualdades sociais e vítimas diretas da violência do Estado. A resposta produzida por esses jovens é um discurso contundente que escancara um cotidiano massacrante, que evidencia as mazelas sociais, que aponta os conflitos raciais e coloca em xeque a ordem social, produzindo um verdadeiro grito por uma sociedade mais justa.

O Hip Hop se ramificou por todo país e formou não só excelentes artistas na Música, na Dança ou nas Artes Plásticas, mas, sobretudo formou uma geração de ativistas sociais, educadores populares que encontraram nessa cultura sua identidade e um estilo de vida que resignificou o conceito de periferia, que garantiu oportunidades, que salvou vidas.

Neste sentido, o projeto de Lei 6756/2013 de autoria do Deputado Federal Romário do PSB – RJ que propõe a regulamentação das profissões e atividades integrantes da cultura Hip Hop vai totalmente contra a trajetória do movimento, pois sinaliza para um processo de mercantilização da cultura em detrimento da sua valorização como patrimônio cultural imaterial difundido há 30 anos, formando várias gerações.

Estabelecer que aqueles que vivem e sobrevivem da cultura Hip Hop precisam passar por um curso técnico para serem reconhecidos como profissionais é uma distorção e um total desrespeito com aqueles que dedicaram suas vidas em prol dessa cultura.

Impor que as crianças e adolescentes menores de 18 anos não podem exercer e expor os seus saberes artísticos é uma tentativa de matar a cultura Hip Hop no seu nascedouro e contraria a proposta do próprio movimento, que cada vez mais vem se inserindo no universo educacional.

Nós, do movimento negro, já assistimos a esse filme antes com a proposta de profissionalização do Carnaval que resultou no embranquecimento, elitização e mercantilização de uma expressão cultural que sempre foi um símbolo da resistência e da construção de identidade do povo negro nas comunidades e periferias de nosso país.

Agora é a hora do movimento Hip Hop mostrar a sua força  e impedir que esse projeto que nitidamente tenta atender aos interesses de uma meia dúzia que deseja enriquecer às custas do Hip Hop.

Hoje a cultura Hip Hop, espalhada pelos 4 quantos, é um patrimônio da cultura popular brasileira e assim deve ser reconhecido pelo Estado Brasileiro. A partir disso é necessário construir uma agenda nacional de valorização e fomentação dessa cultura. Acho que estamos diante de uma ótima oportunidade.

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