América Latina

Presença Afroboliviana e consideração identitária. O que somos: Negros ou Afrodescendentes?

Na Bolívia, os dados do Censo 2012 apresentam um total de 16.329 pessoas maiores de 15 anos que se auto-identificaram como afrobolivianos (0,238% da população total, de acordo com o INE 2013), enquanto que nós, através de organizações sociais, consideramos que somos mais de 25.000 e que as razões desta invisibilização porcentual certamente se encontram no fato de não nos permitirem contar com representação política e, como consequência, lutar por direitos historicamente negados que se traduziriam em reparações históricas. Consideramos nesta reflexão que o prioritário vai além do folclore ou da nomeação constitucional”.

Afrobolivianos

Por Martin Miguel Ballivian*, com tradução de Tomaz Amorim Izabel

No mesclado mosaico cultural que se expressa nestes tempos de mudanças no emergente Estado Plurinacional da Bolívia, deve-se considerar a presença e a contribuição do meu povo na construção deste processo intercultural que foi e é indígena, mestiço e afrodescendente de maneira centrífuga. Se considerarmos o período do tráfico de escravos (escravizado(a)s*) africanos ou convergimos à hibridização cosmoglobal e multipolar do presente, vamos entender que, desde o período colonial até os nossos dias, a contribuição de nossa cultura (nossos saberes e conhecimentos) ao desenvolvimento da Bolívia é importante.

Por esta razão, a Bolívia também deve ser pensada a partir das pegadas e raízes afrobolivianas, sem que entremos apenas em um centralismo indígena.

Nosso povo está consciente de que pode avançar como um verdadeiro movimento organizado a partir da interculturalidade política que emergiu antigamente em espaços como as confrarias, os movimentos quilombolas, as reuniões clandestinas nas fazendas da região dos Jungas nos anos 40 e 50, entre outros da diáspora hispano-americana, fundamentalmente, revalorizando e recuperando as práticas culturais que são estudadas estrategicamente pelos próprios afrodescendentes, tais como: os diferentes rituais que compõem a Saya, as cerimônias fúnebres (Iachiwanita e o Mauchi), as festividades nas comunidades como as de Tata San Benito, Candelaria, Señor de a Cruz entre outros (as), os casamentos afros com suas danças como o huayño “negro”, a Semba, a dança da terra ou “cueca negra”, os techajes, as festas de natal e outros eventos sociais que resgatam sistemas complexos de organização.

Na Bolívia, os dados do Censo 2012 apresentam um total de 16.329 pessoas maiores de 15 anos que se auto-identificaram como afrobolivianos (0,238% da população total, de acordo com o INE 2013), enquanto que nós, através de organizações sociais, consideramos que somos mais de 25.000 e que as razões desta invisibilização porcentual certamente se encontram no fato de não nos permitirem contar com representação política e, como consequência, lutar por direitos historicamente negados que se traduziriam em reparações históricas. Consideramos nesta reflexão que o prioritário vai além do folclore ou da nomeação constitucional.

 

No plano identitário, permitam-me perguntar se somos negros ou afrodescendentes? Antes de responder, começo destacando minha experiência ao verificar o livro de Rómulo D. Carbia sobre “Historia de la Leyenda Negra Hispano-Americana”, publicada em 1944 ou outras publicações monoculturais e essencialistas com postulações diferentes das “nossas”.

Em relação ao texto, considerei em uma primeira análise que se tratava das origens e da história dos africanos na América hispânica. No entanto, ao lê-lo vi que não tinha nenhuma relação com o que eu esperava. Na verdade, ficou evidente que para descrever, de acordo com o texto, “a crueldade, o obscurantismo e a tirania política” em que sucumbiram as importantes instituições da Espanha nas terra do Novo Mundo estava sendo utilizado o termo negro (Negra) para denotar o mau ou o conflitivo, ao invés da “Leyenda trágica”.

Cabe dizer que desde o descobrimento da América, o termo pejorativo e depreciativo “negro(a)”, foi se divulgando livre e inconscientemente em diversos espaços de comunicação. É costumeiro mencionar as coisas da forma que aprendemos a denominá-las sem imaginar o significado real e historiográfico dos acontecimentos.

É certo que o termo negro está aberto a diferentes conotações, segundo quem o entenda, mas é evidente que devemos sair de nosso auto-desprezo e desta visão racista do Outro. É por isto que no coletivo da diáspora africana nas Américas há uma disputa em torno do modo de auto-identificação, que constitui verdadeiramente para muitos uma questão política.

Há uma menor prevalência nas pessoas que não estão ligadas ao movimento organizado em identificar-se como negros. A palavra negro, imposta pelos opressores, teve como finalidade inconsciente ou consciente a uniformização da diversidade das identidades linguísticas, culturais e ideológicas que os nossos ancestrais traziam. Por esta “castração” das identidades se efetuou um etnocídio que até nossos dias tem efeitos negativos em nossos movimentos, em nossas comunidades e no afrodescendente que não valoriza sua essência-identitária que lhe foi negada e substituída por um termo homogenizante que tem sua razão de ser na aparência da pele e não na essência humana.

Para outros, no entanto, o negro é um termo empregado de maneira positiva, sem essa carga pejorativa. É parte também de uma identidade criada e que se deve respeitar. Para mim, buscando ser coerente em matéria do que queremos do futuro – construirmos uma comunidade afrodescendente com uma identidade fortalecida – prefiro o termo afrodescendente, como parte de nossas reivindicações e das lutas políticas. Estamos celebrando no mês de Julho o Afroboliviano: descendentes do berço da humanidade e nascidos em terras bolivianas.

Mas o debate está aberto, somos negros ou afrodescendentes? Aqueles que se recusam a  serem chamados de negros podem se sustentar na hipótese de Whorf (1971), que argumenta que o pensamento humano é fortemente condicionado pela linguagem. Consideremos a possibilidade de alterar o idioma (os termos) para promover mudanças ideológicas, como aconteceu com o “índio” agora denominado indígena e, em nosso caso, substituir a palavra “negro” por afrodescendente, criando assim uma possibilidade de nos reidentificarmos.

Creio que idéias como a da permanência da denominação de negro podem ser válidas e respeitadas. Mas o ponto aqui é criar o caminho para reconstruir novos discursos próprios que nos devolvam espiritual e psicologicamente às racionalidades ou sabedorias africanas, sem nos desassociar do que queremos ser agora e no amanhã, porque ele será nosso orgulho e um redescobrimento a partir do interior das identidades negadas.

Estes preconceitos entre outros da atualidade não têm razão de ser se apostarmos em uma reconstrução de nossa historiografia que nos permita romper com a tendência “ahistórica”. Por isso convém buscar dados maiores que possam nos dar orgulho de contá-los e escutá-os. Já que a história é e será política, nosso povo deverá se orientar para que possa gerar contramitos: passar da negatividade imposta de nos vermos mal para nos vermos positivamente. Além disso (reiterando) nosso Estado Plurinacional tem que levar em conta que neste tempo de mudanças, é preciso considerar que a Bolívia tem uma matriz cultural afroboliviana, que não é apenas mestiça e indígena.

Martin Miguel Ballivian é pesquisador Afroboliviano e Comunicador Social)

E-mail: afroboliviano_mmb@hotmail.com
Telefone: + 591 72284235

 

* O termo “escravo” é muito utilizado por outros autores e pesquisadores. Mas devo explicar que os afrobolivianos e seus descendentes desde o início da colônia não devem ser entendidos como “escravos”, já que esta não é nossa raiz ou nossa razão de ser. É preferível falar de seres, tanto homens quanto mulheres, “escravizados”, por que foram convertidos nisto pelo invasor.