Cultura racismo

Pessoas e índios, coisas diferentes

 

De Douglas Belchior

 

No Brasil, futebol, seleção e copa do mundo têm sido importantes como elementos e momentos de afirmação da nação brasileira, do patriotismo tupiniquim e principalmente da reafirmação do que somos enquanto povo.

É importante refletir sobre o que leva um país de maioria negra e de raízes indígenas como o Brasil preferir a representação da apresentadora gaúcha Fernanda Lima e do ator catarinense Rodrigo Hilbert, ao invés da dupla de atores negros Camila Pitanga e Lázaro Ramos, como rostos oficiais diante do planeta bola.

Me refiro a essa emblemática troca, apenas como um dos inúmeros exemplos que temos de como o racismo e a mentalidade eurocêntrica dita as regras no país da democracia racial.

 

O trabalho de Lorena Maria e Silva, pesquisadora e produtora da TV Senado ilustra a dolorosa realidade racista que vivemos.

 

Vale a pena ler cada palavra e assistir o último episódio da série “Brasil no Olhar dos Viajantes”.

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Por Lorena Maria e Silva

 

Há dois anos trabalho com o diretor João Carlos Fontoura na pesquisa da série Brasil no Olhar dos Viajantes. Trata-se de uma produção da TV Senado sobre os relatos que os estrangeiros fizeram do Brasil desde o descobrimento até as grandes expedições do século XIX. Pois bem, percebi que essa série é muito mais atual do que podíamos imaginar.  Desde que comecei a pesquisar os textos dos viajantes fui descobrindo termos, expressões e ideias que estão aí, muito presentes nas nossas recentes discussões.

 

A repercussão das manifestações em Brasília, em que os índios foram hostilizados e novas cenas de violência se repetiram na rua, só corroboraram essa percepção.  A manchete da Globo News trazia “Uma pessoa foi presa e um índio foi apreendido”.  Pessoas e índios … Parece bobo, mas a nossa relação com os índios passa por uma discriminação explícita, que o considera como algo mais próximo de um selvagem do que de um cidadão que deveria ter seus direitos respeitados. A mesma coisa com os negros. Os comentários sobre a aprovação das cotas para negros em cargos públicos são inacreditáveis. Não falo daqueles que argumentam sobre outras possibilidades para o acesso do negro às universidades e ao mercado de trabalho. Falo daqueles que acham um privilégio esse tipo de política pública, como se a nossa história tivesse sido muito justa com os negros.

 

Bem, depois desse meu desabafo, compartilho os trechos que achei nos livros. Se essa série pode contribuir em alguma coisa para as discussões atuais, acredito que seja revelando o quanto a nossa opinião sobre determinados assuntos é uma visão importada.  Ou, pelo menos, foi alimentada anos e anos por pessoas que tinham uma concepção eurocêntrica, discriminatória e que nos viam desde o princípio como “inferiores, incivilizados, bárbaros…”, como disse a professora Mariza Veloso em seu depoimento.

 

 

Séculos XVII e XVIII

 

01)   “Os pobres selvagens, asseguro-vos, manifestaram uma alegria indescritível com a nossa presença. É um povo já completamente seduzido e conquistado, um povo aberto à verdade e que nos ama e admira infinitamente, a ponto de chamar-nos de profetas de Deus e Tupã.”

 

Relato do francês Claude D’abbeville, intitulado Chegada dos padres capuchinhos na Índia Nova, denominada Maranhão – 1612

 

02)   O Brasil, a bem da verdade, não passa de um refúgio de ladrões e assassinos – não se nota, no país, qualquer subordinação, qualquer obediência.”

 

03)   “Os costumes nesse país são corrompidos e os homens não ruborizam por nadaAs mulheres não são menos debochadas e, publicamente, vivem de maneira completamente desregrada. Os religiosos e padres seculares, além de ignorantes as extremo, mantêm relações públicas com as mulheres ….”

Relatos do francês Le Gentil la Barbinais em sua passagem pela Baía de Todos os Santos em 1717.

 

04)   “Desconhecem, igualmente, qualquer tipo de matrimônio, sendo a lascívia comum entre eles, sobretudo por parte das mulheres, que são além da medida apreciadoras da luxúria. Pode-se ter quantas mulheres se quiser e manter com elas relações carnais independentemente do parentesco, em público e sem qualquer pudor, como verdadeiros animais selvagens”.

 

05)   Os portugueses, conhecidos pela sua avareza, têm o costume, quando um navio entra no porto, de triplicar o preço dos artigos nos seus mercados, da laranja à pipa de vinho”.

 

Relatos do francês François Pyrard de Laval em sua passagem pela Baía de Todos os Santos em 1717.

 

06)    “A gente rica (…) nunca anda a pé. Empenhados sempre em encontrar meios para se distinguirem dos homens tanto do resto da América como da Europa, os habitantes daqui têm vergonha de utilizar as pernas que a natureza lhes deu para caminharem. Em geral, deixam-se molemente carregar numa espécie de cama feita de tecido de algodão, suspensa, de ambos os lados, por um grande bastão, que dois negros levam sobre a cabeça ou sobre os ombros”.

 

07)   “Pelas ruas só se veem as figuras hediondas dos negros e das negras, escravos que a languidez e avareza, muito mais que a necessidade, transplantaram da costa da África para servir à magnificência dos ricos.” 

Relatos do francês François Frezier em sua passagem pela Baía de Todos os Santos em 1714.

 

 

Século XIX

 

 

08)   “A tendência geral produzida pela escravidão, examinada nos diversos pontos de vista, é despertar todas as más qualidades em quem administra e em quem é administrado por esse sistema. Por esse sistema o governo permite a desmoralização de seu povoe que as propriedades dos vassalos sejam dirigidas de maneira desvantajosa.”

Relato do viajante Henry Koster no livro Viagens ao Nordeste do Brasil (1817).

 

09)   “… faltam os elementos para grandes progressos; uma população rarefeita, disseminada por imensa superfície, abandonada a si própria, enervada por um clima tórrido, sem emulação, quase sem necessidades, não modifica coisa alguma, não quer e não sabe mudar nada”.

 

10)   “Ali, não é o calor excessivo que leva os homens à preguiça; eles são indolentes porque necessitam de pouca coisa para viver, não conhecem o luxo e tanto a fecundidade do solo como a doçura do clima não os obriga a despender grandes esforços”.

Relatos do naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire em sua viagem por Minas Gerais e Goiás no ano de 1819.

 

11)   “É de se obervar que […] as leis sobre a escravidão, de origem remotíssima aliás, transmitiram de geração em geração uma série de privilégios e castigos que se encontram hoje quase sem alteração no Brasil, parte mais moderna do Novo Mundo”

 

12)   “… depois de amarradas as mãos sentou-se sobre os calcanhares, passando as pernas entre os braços de modo a permitir ao feitor que enfiasse uma vara entre os joelhos […] em seguida, facilmente derrubada com pontapé, a vítima conserva posição de imobilidade que permite ao feitor saciar sua cólera.”

 

Relato do francês Jean-Baptiste Debret em Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, publicado entre os anos de 1834 e 1839.

 

13)   “O maior serviço que o rei poderia prestar aos súditos, no Brasil, seria a distribuição de médicos e cirurgiões competentes pelos diferentes pontos do país, e o estabelecimento de boas escolas, a fim de, gradualmente, dissipar a rude ignorância e cega supertição…”

 

Relato do alemão Maximilian de Wied-Neuwied publicado em 1820 no livro Viagem ao Brasil nos anos de 1815 a 1817

 

14)   “O barulho e a alegria desenfreada de muitos negros reunidos imprimem a essa festa popular um cunho especial, esquisito, de que somente podem fazer ideia aqueles que tiveram ocasião de observar diversas raças humanas em promiscuidade”.

 

Relatos dos naturalistas alemães Baptiste von Spix e Carl Friedrich Phillipp von Martius publicados na obra Viagem pelo Brasil, entre os anos de 1817 e 1820

 

 15)   “Nunca é muito agradável submeter-se à insolência de homens de escritório, mas aos brasileiros, que são tão desprezíveis mentalmente quanto são miseráveis as suas pessoas, é quase intolerável! Contudo, a perspectiva de florestas selvagens zeladas por lindas aves, macacos e preguiças, lagos, roedores e oligatores fará um naturalista lamber o pó até da sola dos pés de um brasileiro.”

 

Relatos do inglês Charles Darwin no livro pesquisas sobre a geologia e a história natural nos vários países visitados pelo H.M.S. Beagle, 1832-1836

 

16) “Ela apresenta o singular fenômeno duma raça superior recebendo o cunho duma raça inferior, duma classe civilizada adotando os hábitos e rebaixando-se ao nível dos selvagens. Nas povoações do Solimões, as pessoas que são consideradas como da aristocracia local, a aristocracia branca, exploram a ignorância do índio, ludibriam-no e embrutecem-no, mas tomam não obstante os seus hábitos e, como ele, sentam-se no chão e comem com as mãos”.

 

17)  “Esse cuidado em excluir os escravos dos trabalhos públicos revela uma tendência para a emancipação. Inspira-se na ideia de limitar pouco a pouco o trabalho servil às ocupações agrícolas, afastando os escravos das grandes cidades e suas vizinhanças”.

 

Relatos do suíço Louis Agassiz no livro Viagem ao Brasil publicado em 1867

 

 

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