Periferia Política

Periferia, a dama mais cortejada da cidade

DSC01183

 

Por Jorge Américo e Douglas Belchior

 

As eleições municipais estão aí e se apresentam como uma oportunidade de aprendizado interdisciplinar. Em nenhum outro momento da vida nacional vemos tanta gente falar sobre o que não conhece. Os linguistas e semióticos precisariam de ajuda dos matemáticos para contar quantas vezes a palavra “periferia” aparece na boca dos políticos.

Depois de quatro anos seguidos de apedrejamentos e “rebosteios”, a periferia deixa de ser a Geni da canção do Chico para ser a dama mais cortejada da cidade. Não há quem não a ame. Não há quem não queira tomar o café da Dona Maria num copo de requeijão, tirar uma selfie com o Seu Zé ou comer uma asinha de frango na laje com a rapaziada ao som do Exaltasamba. Militares, empresários, delegados, médicos, apresentadores de televisão, socialites, enfim, todo mundo quer estar nos braços da periferia.

Na maioria dos discursos eleitoreiros, a periferia é romantizada. É uma terra de bárbaros de bom coração que precisa ser colonizada e domesticada por alguém que conheceu as coisas boas da vida. A periferia precisa de alguém que leve o progresso, o conhecimento, a recreação, o desporto, a água tratada, a segurança, o pediatra, o xarope, o sinal de Wifi. Os marqueteiros usam técnicas hollywoodianas para tentar convencer os eleitores de que quatro anos são suficientes para sanar todas as sequelas geradas pelos 388 anos de escravidão e outros 128 de exclusão, opressão e violência de toda espécie.

 

Na maioria dos discursos eleitoreiros, a periferia é romantizada. É uma terra de bárbaros de bom coração que precisa ser colonizada e domesticada por alguém que conheceu as coisas boas da vida

 

Por outro lado, a cidade dos ricos nunca aparece nas campanhas eleitorais, embora seja e continuará sendo alvo das principais intervenções urbanísticas – independentemente de quem vencer as eleições. As vias alargadas, iluminadas e arborizadas continuarão a proporcionar mobilidade, segurança e ar fresco. Os parques públicos, teatros e museus oferecerão boas opções de recreação. E se alguém tomar um tombo e ralar o joelho nas ciclovias, uma rede formada pelos melhores hospitais do país estará pronta para prestar o melhor atendimento.

O que mais angustia é o desrespeito com as pessoas mais simples que abrem as portas com simpatia para quem quer que seja. Bem treinados, os caçadores de voto deixam sua zona de conforto e se exibem com desenvoltura diante das câmeras. Comem pastel na feira, fazem caras e bocas quando ouvem histórias tristes, choram e até abraçam os moradores da periferia. Seria hilário imaginarmos o contrário. Que rico abriria a porta de sua mansão nos jardins ou em sua cobertura em Higienópolis, para um candidato negro nascido e criado na periferia que quisesse apresentar seus projetos para uma cidade mais justa e democrática? Que rico serviria um drinque para este candidato na beira da piscina, mostraria a cama onde dorme, a mesa onde come, revelaria toda a sua intimidade?

 

Que rico abriria a porta de sua mansão nos jardins ou em sua cobertura em Higienópolis, para um candidato negro nascido e criado na periferia que quisesse apresentar seus projetos para uma cidade mais justa e democrática?

 

Isso não acontece nos bairros nobres porque somente a cidade dos pobres está em disputa e precisa ser salva. No fundo, tamanha vontade de salvar a periferia esconde um desejo secreto de ser salvo por ela. Ora, ninguém se elege sem os votos da periferia,

que é maioria sem ser. Este é, portanto, o momento de a periferia ser defendida como nunca por todas as vozes que sempre declararam seu amor a ela, seja rimando, seja recitando, interpretando ou organizando luta política na própria periferia.

A desavergonhada baixaria da política torna legítima a posição de quem se cala para não dar ibope aos partidos políticos pelos quais não simpatiza. Mas, por outro lado, é legítimo também afirmar que a omissão, em tempos de golpe, é um voto de confiança na gravata que sempre oprimiu e na farda que sempre matou.

Não. Não é tempo de omissões.

 

*Jorge Américo é jornalista, poeta e educador popular.
*Douglas Belchior é professor de história e editor deste Blog.

 

DSCF5805

Você também pode gostar