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Pasolini e o fechamento das escolas

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Por Tomaz Amorim, do 3paragrafosdecritica

Se a ideia tradicional de aluno pressupõe seu complementar oposto, o professor, então seria natural esperar de cada aluno o desejo incendiário de fechar o espaço em que se desenrola esta transferência unidirecional de “saberes”: a escola. O professor como o técnico que insere nas mentes dos alunos, sujeitos esvaziados, incapazes de interagir, responder ou questionar, certos saberes. Saberes, não aqueles originados das questões específicas dos que os buscam, mas aqueles pré-definidos pelo Estado e seu dono, o mercado, aqueles úteis, genéricos, aplicáveis e funcionais a um certo interesse “geral”. A literatura brasileira conhece bem este desejo nas inspiradoras páginas finais de O Ateneu, de 1888, em que a escola é colocada abaixo num incêndio criminoso causado por um aluno. A literatura, nesse fim de século, vira-se contra si mesma produzindo um argumento em que se vê como justificada a destruição de uma de suas instituições de sustentação mais importantes. Mas o Brasil contemporâneo, vanguarda do inesperado, consegue produzir contradições sociais com tamanha velocidade e intensidade que somos surpreendidos com manifestações e ocupações simultâneas em todo o estado de São Paulo de alunos que exigem justamente o contrário: o não fechamento das escolas.

Em um artigo para o jornal de 1975, o cineasta e escritor italiano Pier Paolo Pasolini trata do problema da violência juvenil na Itália e associa sua origem a um “ambiente de criminalidade de massa” gerado pela “perda por parte dos jovens dos próprios valores morais, isto é, da sua própria cultura particularista com seus esquemas de comportamento, etc”. A alienação da própria cultura seria efeito de uma modernização incompleta pela qual passava a Itália (e, aliás, toda a periferia do Capitalismo, Brasil incluso) em que nem os velhos valores foram completamente perdidos, nem os novos valores adquiridos com sucesso. Para resolver esta alienação que confundia a juventude sobre sua “própria função”, Pasolini faz “propostas swiftianas” de abolição, atacando as instituições que mais fomentavam este processo: a escola e a televisão. Cínico em relação a propostas de “autogestão” e “descentralização”, para ele a escola seria mero espaço de “iniciação à qualidade de vida pequeno-burguesa”, onde se ensinam apenas coisas estúpidas e moralistas que não teriam como função oferecer um futuro a partir da própria cultura, mas “criar um pequeno-burguês escravo em lugar de um proletário ou sub-proletário livre”. Se é assim, o fechamento da escola surge como um argumento levado às últimas consequências, um travamento da máquina modernizadora que possibilitaria, talvez, o ressurgimento de uma cultura jovem legítima, não alienada pelos modelos televisivos e burgueses, mas preocupada com sua realidade específica. Em uma nota de rodapé, Freud comenta os sistemas educacionais em uma referência quase profética ao texto de Pasolini: “Ao lançar os jovens na vida com uma orientação psicológica tão incorreta, a educação procede como se munisse com roupas de verão e mapas dos lagos do norte da Itália pessoas que farão uma expedição polar”.

O desejo dos alunos, em 2015 e em São Paulo, não é de manutenção. Menos ainda de uma destruição estéril, privilégio de herdeiros como os personagens do Ateneu, ou, em certo sentido, de uma exigência intelectual como a de Pasolini. Trata-se de uma interrupção. O impedimento do fechamento quer impedir que a escola continue sendo o que é. Os alunos conhecem o objetivo do projeto de educação do estado de São Paulo: produzir mão de obra, qualificada ou barata, dependendo do CEP, dentro do mesmíssimo programa denunciado por Pasolini na Itália de 70. Quaisquer outros objetivos pedagógicos amplos como o desenvolvimento das potencialidades de cada estudante, a ampliação de seus horizontes de percepção, a formação de sujeitos críticos e conscientes da especificidade de seu pertencimento cultural, quaisquer objetivos, ainda que reduzidos por uma visão estatal, como a formação de cidadãos atentos aos acordos sociais, etc, são drasticamente reduzidos à tarefa dupla de produzir produtores e consumidores. A reestruturação escolar, com seu caráter declaradamente privatista, não é uma redução, mas uma intensificação, talvez o passo último, deste projeto pedagógico. Contra esta continuidade é que estão as ocupações das escolas. Elas podem ser compreendidas à luz da dialética da destruição criadora: impedir o fechamento, travando a concepção pedagógica do aburguesamento, para que seja possível uma abertura. Por isto, os alunos prometem manter as ocupações “até o fim”: o fim desta escola a fim de abrir o espaço para a outra.

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