Política

Os primeiros meses do golpe: balanço necessário e provisório

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Por Douglas Rodrigues Barros

 

Um historiador no ano de 2100 procura, numa renomada biblioteca digital, documentos que o ajudarão a preparar sua hipótese para um futuro doutorado e escreve uma introdução como parte de um projeto de pesquisa.

Abaixo segue sua introdução vinda diretamente do futuro:

“Nos primeiros meses subsequentes ao sofisticado golpe jurídico-legalista de 2016 ficou visível e evidente que as mudanças políticas se ajustavam a medidas econômicas no intuito de cercear e suprimir direitos, principalmente, trabalhistas. O objetivo, como ficou claro depois, era o de salvaguardar a ideologia de mercado e se ajustar as mudanças globais de retraimento e crise estrutural da economia.

Ambas as mudanças, políticas e econômicas, influíam diretamente no campo social. Após o golpe o aumento da violência, em seus diversos sentidos, foi a tônica – com o assassinato de crianças negras pela polícia militar, com o endurecimento da repressão sobre os movimentos sociais, com a retração da liberdade crítica, inclusive com a perseguição de professores das escolas públicas por meio do projeto Escola sem partido.

O Brasil seguia, em partes, uma complicada tendência mundial de recuo nos horizontes de crescimento e desenvolvimento sociais, exportando inclusive tecnologia de repressão para outros países como França, Inglaterra e EUA, que a seu modo criaram suas próprias UPP’s (ou como era alcunhado, eufemisticamente, à época: Unidade de Polícia Pacificadora).

O terreno histórico alavancava um solo propício para ações de direita que foi aos poucos se consolidando frente ao vácuo deixado pelos movimentos sociais e organizações civis que tinham se atrelado ao PT (partido dos trabalhadores). A partir dos duros golpes sofridos no campo econômico pela instauração de uma crise profunda, a ideia de uma revolução dentro da ordem propagada pelos meios midiáticos e movimentos de direita, financiados por grupos empresariais avessos ao partido da ocasião, ajudaram a manter um estado de completa indiferença social.

A crise, que ia se aprofundando nos meses pré-golpe, propiciou o surgimento de grupos que assumiram aspectos tradicionais da luta de esquerda, “subvertendo-os” e os colocando na perspectiva da ordem. A massa confusa de verde-amarelo demonstrou que independente dos escândalos de corrupção, o que a interessava era simplesmente a derrubada do PT. Isto fica evidente se analisarmos o número de escândalos e envolvimentos na corrupção pela nova base governista – instaurada depois do impeachment – e que foi respondida com total indiferença do discurso moralista anterior ao golpe por parte desse grupo.

A capacidade de maquinar, remodelar e recriar fatos históricos e corriqueiros utilizando as redes sociais deixou de existir. Oitenta e quatro anos depois ficou evidente na história do país que nenhuma outra orientação política recorreu tanto a estetização da política, utilizando inclusive a comunicação de massa para impor sua pauta.

Era sem dúvida o fim de uma era cujas raízes se mostravam no ano de 2013 – mas tinham sido semeadas na abertura democrática em 1988 – denunciando talvez a mais profunda crise daqueles tempos.

A recessão econômica nos meses que seguira o golpe não arrefeceu, e as medidas de ajustes e austeridade, propugnadas pelo governo interino, pareciam cada vez mais refluir qualquer possibilidade de melhoria. O surto inflacionário atingiu as necessidades básicas – como a alimentação – elevando o feijão carioca a um objeto de luxo enquanto o leite tinha que ser substituído por outras fontes de nutrição. O desemprego se aprofundou e a precarização do trabalho existente foi alavancada pelas medidas impostas pelo governo do golpe.

Muitos teóricos de então, entendiam o esgotamento daquele ciclo, como o fim da medida terapêutica por parte do Partido dos trabalhadores (PT) que tentava fazer com que os aspectos mais ordinários da crise do capital fossem remediados. Falava-se em gestão da barbárie. Chegavam, assim, a conclusão de que houvera um esgotamento simultâneo de saídas para a crise econômica unida ao esgarçamento da transição democrática. Em linhas gerais: a forma de gestão do capital já não tinha nada em comum com a democracia em seu sentido mais rasteiro, formal e representativo. Era o tempo da barbárie sem gestão.

Com efeito, os primeiros meses pós-golpe apresentou tais sintomas por meio dos inúmeros assassinatos – inclusive de lideranças populares, principalmente no campo – e o aprofundamento do extermínio da juventude negra que eram respondidas pela indiferença da opinião pública hegemonizada por setores midiáticos ligados ao golpe. A crise social crescente assumia todos os poros da vida e a política no pais estava em frangalhos com um presidente interino que detinha, em sua cúpula de poder, corruptos historicamente reconhecidos enquanto tais.

Havia uma convergência de exaustões. Por um lado, uma exaustão sobre a forma política adotada nos idos de 1988; por outro, uma exaustão propiciada pelo desmantelado crescimento econômico dos anos lulistas que, aproveitando-se da crise global do subprime de 2008, decolou sendo inclusive objeto de capa da revista The Economist. Como se sabe, a marolinha se tornou um tsunami e, nos meses que anteciparam o golpe de 2016, o governo Dilma Rousseff havia sido atingido em cheio pelo deslocamento dos investimentos financeiros e pela própria financeirização da vida política da qual havia se tornado refém.

Todo esse desenho, contudo, estava sendo rabiscado no próprio processo de formação dos anos pós ditadura militar. Cuja transição para democracia fora em partes sabotada por interesses de setores ligados a ditadura e, que influenciaram demasiadamente a transição democrática que era agora completamente sabotada. Em outras palavras, no período em questão, não havia sido consolidada – no plano formal e legalista – as próprias instituições democráticas. Podia-se dizer que 1964 – ano em que foi instaurado o golpe militar – era um ano que não tinha terminado.

Desse modo, os meses subsequentes ao golpe marcaram não apenas um aprofundamento da crise econômica, como uma total exaustão do modelo político. Revelando que na carta de 1988 se ocultavam grandes problemas que mantinham uma continuidade e interação de formas arcaicas de políticas cuja correspondência estava atada diretamente aos vintes anos de ditadura militar. O balanço era que a indiferença social, o modelo de desfaçatez e ignorância contra aquilo que origina a corrupção, a ressaca sentida pelos movimentos sociais e organizações civis, a continuidade e o aprofundamento da violência policial traduziram não apenas a forma, mas o conteúdo daquele golpe.

Anos determinantes para nossa situação atual”.

 

 

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