Escrita da história

O racismo é a forma de manutenção do capitalismo à brasileira

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Historica greve dos garis no Rio de Janeiro – Março de 2014

Por Douglas Rodrigues Barros

Muito já se falou do negro e sua posição na sociedade do consumo. Parece, entretanto, que o negro enquanto tal só pode ser abordado em contraposição direta ao sujeito branco. Muitas vezes, a discussão fica em torno do sujeito detentor de direitos e privilégios (branco e macho) e do sub-sujeito (negro, mulher, etc.,) que fora podado ou tem menos acesso aos benefícios do consumo. Os movimentos sociais, principalmente aqueles que lutam pelo reconhecimento da negritude, se vêem, com isso, limitados às pautas de inclusão que muitas vezes, ao invés de promover uma real emancipação, promovem uma adequação ao status quo.

Isso ocorre dada, principalmente, as condições econômico-sociais que impõe ao negro no Brasil o lugar de coadjuvante das atividades no interior do mercado de trabalho. Segundo análise realizada em 2013 pela Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) em parceria com o DIEESE, ainda existem diferenças claras na situação de trabalho entre os negros e os não negros. Além disso, em algumas regiões o fator de discriminação é levado em conta quando o assunto é contratação.

 

Por isso, as raízes da manutenção da desigualdade racial, não parece repousar apenas na nossa especificidade cultural – ainda que não desprezamos sua força – senão na própria dinâmica interna do sistema econômico que se sustenta por meio da exclusão. Isso fica indicado pela constatação de que “apesar da redução das desigualdades ao longo das últimas décadas, ainda existem diferenças significativas nas condições de trabalho vivenciadas por negros e não negros”.

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Ademais, a divisão no interior do mercado de trabalho brasileiro regulou inclusive os espaços adequados para cada tipo de raça. Segundo o PED 2013 “A questão racial interfere para designar lugares para trabalhadores negros na estrutura produtiva, passíveis de serem traduzidos por situações de discriminação […]”. A isso se deve o motivo dos negros serem os primeiros a sofrerem as mazelas da desigualdade pois sua maior ocupação está em setores que exigem menor qualificação profissional, tais como setores da construção civil e domésticos.

Com muita frequência, tenta-se naturalizar a desigualdade de oportunidades, que penalizam o povo negro, com argumentações atribuídas à defasagem escolar. O que não se observa, contudo, é que tal defasagem é atributo também da própria dinâmica da exclusão imposta pelo sistema imperante.

Constata-se com facilidade que negros são menos escolarizados justamente pela dificuldade do acesso e inclusão ao mercado de trabalho. Em 2011 e  2012, 27,3% dos afro-brasileiros não haviam concluído o ensino fundamental e apenas 11,8% contavam com o diploma de ensino superior. Entre os não negros esses percentuais eram, respectivamente, de 17,8% e de 23,4%. Os negros sofrem, sobretudo, pela retenção no ensino fundamental e dificuldades de acesso ao ensino superior.

Outra marca característica da manutenção do capital via racismo se baseia nos salários. Segundo estudo divulgado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), em 2013, o negro brasileiro recebia em média salários 36,11% menores que os brancos. (Fonte: Estadão 13/11/2013).A coisa é ainda pior paraa mulher negra que ganha um terço do salario dos brancos e metade do salário de um homem negro. Não obstante na maioria das vezes, as mulheres negras ocupam o setor de serviços domésticos cuja porcentagem é de 19,2% comparada a 10,6% as mulheres não negras, ou seja o dobro. Assim, a relação que o negro tem no mercado de trabalho revela indícios de problemas sociais subjacentes a própria dinâmica das relações econômicas atuais.

 

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Mas, por qual motivo, ao contrário das otimistas previsões liberais, o negro continua excluído? Para responder essa pergunta precisamos observar a forma de surgimento e manutenção das relações que irão formar as relações do mundo mercadológico. A medida que este se desenvolveu, mais e mais a abstração da produção e reprodução social moldou a subjetividade moderna fundada na concorrência. E é exatamente isso que ergue os pressupostos daquilo que conhecemos como esclarecimento.

Não é por acaso que o propósito de crítica feita pelos movimentos sociais, muitas vezes, esbarre nas pautas de inclusão somente. Geralmente as críticas são feitas a partir do ponto de vista do colonizador europeu e deixam de refletir sobre o conteúdo normativo do conceito de ‘esclarecimento’. Tal problema surge porque a ideologia hegemônica do mercado, que se legitima no ‘esclarecimento’, carrega em suas categorias uma suposta promessa emancipatória de liberdade – igualdade – fraternidade.

Na sociedade do consumo, porém, o único sujeito de plenos direitos é o capital. Ele atravessa muros erguidos para separar povos e tem direitos garantidos onde quer que chegue. É em última instância, o capital que se efetiva e torna-se o sujeito das relações mercantilizadas socialmente. O homem – mesmo o branco europeu – entra nela somente como mercadoria e, nesse sentido, em princípio o ex-escravo ou as mulheres não tem os “requisitos mínimos” para ser incluso na esfera de sua acumulação.

Não é mero acaso que ao ser abolida a escravidão aqui no Brasil, imediatamente se criou a política de imigração. Acompanhando o desenvolvimento do capitalismo, a ideologia do Esclarecimento referendou profundamente suas práticas justificando a exclusão com os ditos pensamentos científicos e higienistas que vez ou outra querem retornar à cena. Assim, o desenvolvimento da crítica esclarecida tornou estéril a crítica ao próprio Esclarecimento.

Por isso, o mantra teológico neoliberal reza que não é mais possível pensar um mundo para além do esclarecimento e suas promessas de suposta emancipação e felicidade.Como diz Kurz: “O conceito de felicidade… jamais significou outra coisa senão o êxito junto à concorrência, o que sempre pressupõe os objetos da felicidade numa forma capitalista, para além da qual não deve haver nenhuma outra forma”.

Assim, a forma da felicidade dentro da sociedade do mercado é a forma da própria manutenção e impulso do mercado. A felicidade passa, assim, pelo crivo da concorrência e disputa no mercado de trabalho, disputa que exclui de antemão aqueles que não têm os requisitos mínimos para dela participar.

O negro adquire, dessa maneira, uma posição acessória com a mulher, se for negro e mulher o status social imposto pela modernidade diminui ainda mais. Para se adequar é preciso entrar na desleal concorrência e sacrificar-se muito mais em nome da inclusão. Como diz Emicida: “Quando pessoas viram coisas, cabeças viram degraus!”. Acatar esse código abstrato dos “homens de bem” que impõe os comportamentos aceitáveis, torna-se a missão de qualquer negro que queira disputar uma vaga de emprego. Isso significa, alisar o cabelo e jamais andar com boné de aba reta, principalmente depois das dez da noite.

No Brasil onde a suposta “democracia racial” até hoje é alardeada, mesmo com os sacrifícios impares, os negros,ao contrário da fé liberal, ainda ficam em segundo plano nas contratações. Florestan Fernandes mostrou isso com clareza atroz em seu A integração do negro na sociedade de classes, de lá para cá, como mostram os dados dos diversos sensos, essa realidade não mudou. O que só comprova a tese de que o racismo é a forma de manutenção do capitalismo à brasileira.

 

 

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