Intolerância Política

O que está por trás do ódio a Jean Wyllys?

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Por Douglas Belchior e Douglas Rodrigues Barros

 

No dia 10 de agosto a página do Facebook do Blog Negro Belchior foi atacada com centenas de ofensas, injúrias, calúnias e ameaças. O motivo: um vídeo de Jean Wyllys. Temos total noção de como esses ataques orquestrados, no submundo da internet, funcionam. Sabemos que não foi a primeira como não será a última vez que uma figura que

incomoda pelo seu posicionamento político em defesa das minorias e em busca de ampliação democrática, sofre. No entanto, o que explica esse ódio, ou melhor, o que explica tantos ataques promovidos pelo ódio?

Jean Wyllys se tornou o alvo preferencial de uma direita psicopata e esquizofrênica que, a despeito de qualquer argumento racional, se utiliza de violentos ataques verbais e de calúnias para dar vazão ao seu ódio e frustração.  Não é mero acaso que, acerca de um mês atrás, postamos um texto preliminar de como age o fascismo. Naturalmente, o texto em questão não tinha como aprofundar o estudo, dando apenas indícios e bibliografia para um estudo mais específico sobre o fascismo para quem se interessasse.

Jean Wyllys representa a transformação e a superação daquilo que era tido como comum e normatizado. O fato de ser um homossexual assumido e defender pautas radicadas numa tradição de oprimidos, o torna alvo número 1 de uma reação conservadora que, na total ignorância e obscurantismo, precisa da criação de um inimigo para fazer escoar sua frustração.

A dificuldade de se compreender essa categoria – fascismo – está no fato de que para a maioria das pessoas os conceitos são categorias fixas e imutáveis. O problema é que, no terreno do social, as categorias se dissolvem, se transfiguram, se transformam e por fim se superam. Assim ocorre com o conceito de fascismo e, do mesmo modo, com o conceito de família. As mudanças nas formas de compreensão da vida social são empreendidas com os desdobramentos da própria história. E os conceitos surgem e se alteram para que compreendamos essas mudanças. Esses desdobramentos estão em disputas ocorridas no campo da política – entendida em sentido amplo – não apenas partidário ou representativo.

E é nesse sentido que o surgimento de uma figura pública como Jean Wyllys incomoda grandemente. Isso porque Jean Wyllys representa a transformação e a superação daquilo que era tido como comum e normatizado. O fato de ser um homossexual assumido e defender pautas radicadas numa tradição de oprimidos, o torna alvo número 1 de uma reação conservadora que, na total ignorância e obscurantismo, precisa da criação de um inimigo para fazer escoar sua frustração.

O filósofo Hegel explica que há dois caminhos para a consciência se afirmar como aquela que começa a conhecer a si mesma, um de fracasso e o outro de sucesso. O caminho que fracassa, é a aniquilação da outra consciência – que é uma negação a nossa própria consciência por ser diferente de nós mesmos. O segundo caminho, que obtém sucesso, é o reconhecimento da outra consciência, à despeito de sua diferença, como igual a nós. Fica claro, que os detratores de Jean Wyllys optam por sua aniquilação. E a aniquilação do diferente é a tentativa desesperada de afirmar o mesmo. O medo real e absurdo do novo e da diferença. A conservação de tudo que é obtuso, arcaico e mofado. Jean Wyllys incomoda porque representa a morte do velho, do normatizado, daquilo que era sólido, mas se dissolveu no ar.

No entanto, isso que surge como elogio é, ao mesmo tempo, uma crítica. Jean Wyllys é o representante da luta homoafetiva no interior de uma estrutura Cis cujos homossexuais não são reconhecidos como sujeito de direito. A luta de Jean para que haja essa garantia esbarra, desse modo, numa estrutura que pelo menos, desde 2013, já se mostrou, para a maioria dos brasileiros, pútrida. Nesse sentido, o fim da modernização econômica brasileira sob a égide do PT pode ser entendido também como fim das formas de representatividade política garantida pela forma “democrática” de representação. Há algo no ódio contra Jean Wyllys que está para além da superfície de suas escolhas sexuais.

Os ataques discriminatórios contra Jean Wyllys são a verdade de nosso tempo sombrio. O que se impõe, para nós, é: não podemos mais nos calar diante disso

E nesse ponto uma análise sobre o fascismo, sempre tão atuante socialmente, se mostra necessária. É preciso dizer que por detrás desse ódio, aparentemente tão impregnado de superficialidade, reside uma questão ideológica de fundo: a rejeição do postulado básico da forma democrática. Estamos num terreno histórico em que está aberta a luta e tudo está indeterminado. Essa indeterminação pode levar inclusive para um tempo ainda mais sombrio no qual o ataque fascista, já tão banalizado, se generalize como força policial. O pedido pela intervenção militar já está posto, a utilização de algumas igrejas fundamentalistas como pressuposto de ingerência política já está evidente.

Vemos aí acentuar-se a união entre religião e Estado e os argumentos “políticos” se reduzirem a argumentos religiosos – grande parte dos ataques a Jean Wyllys partem de argumentações fundamentalistas. A influência, por enquanto parcial, de parte das igrejas neopentecostais sobre o Estado, tem assegurado a imposição de normas jurídicas, com base na religião, independente das convicções de cada cidadão. E isso tem surtido efeitos devastadores socialmente – como a não liberalização da maconha e a não descriminalização do aborto – além de desiquilibrar substancialmente a relação entre o Estado e a Igreja.

Os ataques discriminatórios contra Jean Wyllys são a verdade de nosso tempo sombrio. O que se impõe, para nós, é: não podemos mais nos calar diante disso. A falência econômica está levando à falência da forma política. O que significa que é necessária uma transformação social radical que atue sobre a política. A questão é: estamos prontos para isso?

Assista o Vídeo, amplamente atacado por pessoas sem nenhum amor ou respeito à diversidade:

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