Filosofia Política

O Programa Escola sem Partido e os furúnculos de Karl Marx

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Por Douglas Rodrigues Barros [1][2]

 

O judeu assimilado Karl Marx não era, e nem é, um santo. Ele estaria mais – nas palavras do brilhante conservador, Nelson Rodrigues – para calhorda.  Fumante inveterado, como aliás quase todo homem de ideias, acumulava pilhas de fósforos ao redor de sua mesa e idolatrava o Château Margaux.

Foi entre as centenas de livros, fósforos e páginas de jornais que teve a inconsequência de fazer um filho em Helene Demuth, sua governanta. Este (in)feliz deslize, no entanto, foi assumido por Engels e, só descoberto por uma de suas filhas, Eleanor quando, a incrível lutadora Jenny von Westphalen (sua esposa) já havia morrido.E, portanto, estava protegida de saber de toda a verdade.

Isso para falsos moralistas é algo intragável. Ao saber do (in)feliz deslize um periódico famoso, e com a cara de mídia brasileira, dedicou dezenas de laudas para atacar o velho barbudo chamando-o de bêbado, parasitário, traidor e que não gostava de tomar banho. De repente, o grande filósofo havia se convertido numa espécie de vilão da novela das oito.

Na juventude, logo que chegou na universidade, Marx se envolveu nos círculos de pensadores da filosofia hegeliana, destacando-se entre os chamados hegelianos de esquerda. Isto é, aqueles que aplicavam o método historicista de Hegel à análise social. Comprou uma pistola e nos arroubos românticos da época duelou tomando um tiro de raspão na têmpora esquerda. Adquiriu o hábito de beber muito e, por sua vez, escrever poesias que eram, segundo ele mesmo, péssimas…

Em 1837, Karl dedicou-se integralmente a filosofia e frequentando o café na Rua dos Franceses conheceu um dos seus mais íntimos amigos Bruno Bauer, outro hegeliano de esquerda, que futuramente teria problemas com o governo prussiano. Decidiu completar seus estudos em Berlim e dedicou-se ao preparo de sua tese de doutorado. No mês de março daquele ano, torna seu noivado com Jenny oficial, tendo a aceitação do pai da moça, pois, ainda que fosse judeu (preconceito persistente no ocidente), o futuro calhorda, Marx, era um rapaz inteligentíssimo e simpático.

É preciso dizer que Marx viu nesses anos o surgimento, ou melhor, a explosão da Revolução Industrial, embora, a Prússia – futura Alemanha – ainda guardasse aspectos do antigo regime.Em 1840 morre Frederico Guilherme III imperador da Prússia. Os liberais alemães se animam, todavia, descobrem, para desgosto próprio, que Guilherme IV, que o substituíra, tinha tendências ainda mais reacionárias. Sob este novo governo, a filosofia de Hegel é proibida, e as portas de uma vida estável se fecham para o futuro e sem-vergonha Marx. Que em breve chegará a Dean Street em Londres e estará frente à frente com a barbárie da Revolução Industrial. Deu no que deu.

176 anos depois, o pensamento de Marx, tal como o de seu outrora mestre Hegel, está sendo proibido nas escolas do mundo subdesenvolvido (me refiro, também, a Hungria que tem um governo declaradamente de extrema direita) e não estamos sob o reinado de nenhum imperador. Sabemos, contudo, – ou melhor, aprendemos com o velho calhorda – que as ideias, muito amiúde, se convertem em força material.

Marx, tal como um espectro, ainda paira como uma força motriz dos humilhados e ofendidos arrancando tremores, grunhidos e receios daqueles que defendem a manutenção do status quo. Tais incômodos nos dão notícias, porém, de que seu pensamento ainda se constitui como força material. Não fosse assim; sua proibição, escárnio, escracho nas redes do ódio e, agora, nos parlamentos fundamentalistas tupiniquins não teria razão de existir.

Sob vários aspectos é difícil conceber como minimamente aceitável a aberração chamada Escola sem Partido. Um liberal clássico qualquer teria arrepio de se ver ligado a esse “programa” pela tamanha desonestidade intelectual. Max Weber o paladino do liberalismo desencantado já havia dito que quem se decide pela neutralidade, se decide pelo mais forte. E ao falar de neutralidade, o projeto de lei,Escola sem Partido, opta pelo partido único, ou,o seu partido. Uma de suas tópicas é: neutralidade política, ideológica e religiosa do Estado. Ora, se é Estado não pode haver neutralidade.

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O Estado sempre é tomado por um governo que opta ideologicamente e politicamente pela sua condução. Dizer que o Estado é neutro é o mesmo que decretar o fim da política, do debate e da discussão. É afirmar a apoteose do mesmo, isto é, a manutenção silenciosa das desigualdades imperantes desde sempre. Nem o mais disparatado tecnocrata poderia prever algo dessa dimensão.

Naturalmente este item é confuso – como aliás todo o resto –, provavelmente está correlatado a escola estadual. Se for assim, esquecem, contudo, que mesmo na posição das mesas e carteiras já há uma opção ideológica e a escola tem um princípio político-econômico nos trópicos, qual seja: oferecer mão de obra barata para as empresas e, se possível, qualificada. Assim, ao afirmar qualquer tipo de neutralidade no interior dessa correlação é pôr fim a discussão e não o contrário.

Estabelecem isso como norma, contudo,para não fugirem da Constituição, num intenso malabarismo legal,afirmam que estão de acordo com os pluralismos de ideias no ambiente acadêmico.Claramente ao vetar o debate ideológico, religioso e político esse postulado é vão e se serve de retórica complacente e juridicamente pedante para impor o que realmente se deseja; o fim das discussões e, porque não, a imediata suspensão da filosofia e da sociologia em sala de aula. Desse modo, o pluralismo de ideias defendido não passa de forma sem conteúdo. Não à toa, no momento em que escrevo uma professora já se tornou vítima dessa aberração e foi afastada por ter abordado, em sala de aula, o calhorda descrito acima.

Mas, um dos itens mais interessantes é o que segue, denunciando a vontade impronunciável do retorno da velha Educação Moral e Cívica, trata-se do: direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções.Mas, a educação moral não é propriamente os pais quem dão? Como esses defensores da tradição julgam que a escola – que sofre de todas as mazelas pela falta de investimento e interesse do poder público –é a responsável pela educação moral?

Tendo isso posto, fica evidente que o que está explicito aí, na verdade, é um fundamentalismo religioso tacanho que se volta inconfessadamente contra os avanços da discussão sobre a sexualidade. Implicitamente o que esses reacionários querem dizer é que cabe aos pais escolherem a sexualidade de seus filhos, como se, ao se abordar esses temas na escola, – inclusive tendo com isso um devido esclarecimento que geraria a humanização do assunto com o fim dos tabus – tais temas influenciassem os alunos em suas escolhas sexuais.

As excrecências banais são muitas e uma chama especial atenção pela aberração intelectual que somente em tempos sombrios e obscurantistas podem surgir, vejamos: Finalmente, um Estado que se define como laico – e que, portanto deve ser neutro em relação a todas as religiões – não pode usar o sistema de ensino para promover uma determinada moralidade, já que a moral é em regra inseparável da religião. A moral é em regra inseparável da religião? Eis aí uma grande novidade que nem Espinosa, nem Kant na Crítica da Razão Prática foram capazes de conceber.

 

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Se a moralidade é inseparável da religião então é impossível; ou haver um Estado moral, posto que laico, ou o próprio Estado laico é uma fanfarrice sem fim, posto que não pode ser moral. Outro malabarismo incrível que desconcerta pela presunção de ignorância por parte de seus leitores.

E assim voltamos a cartilha do catecismo que o santíssimo programa quer impor, pois, para estes “Liberdade de ensinar – assegurada pelo art. 206, II, da Constituição Federal – não se confunde com liberdade de expressão; não existe liberdade de expressão no exercício estrito da atividade docente, sob pena de ser anulada a liberdade de consciência e de crença dos estudantes, que formam, em sala de aula, uma audiência cativa”.

O que seria a tal liberdade de consciência? Audiência cativa?Nunca entraram numa sala de aula em escola pública. Quem seria o juiz para determinar que a liberdade de uma consciência foi desrespeitada por outra consciência? Idealismo abstrato ou desfaçatez concreta? Somente uma cartilha poderia alinhavar isso e aí entra o trabalho das velhas figuras que teimam em voltar na história do país: os censores. Não devem haver dúvidas, portanto, que em breve censores estarão com poder de polícia dentro da sala de aula se tal proposta for levada adiante.Não é em vão queum exército de censores nas redes sociais já se formoue estão prontos para destilar o veneno da própria ignorância.

A presunção sem fim destes senhores – sim, porque serão eles que darão as diretrizes do ensino – é horripilante. O processo de formação de qualquer consciência, o princípio da própria civilização, segundo Freud – mas não só –, é a negação. E esta negação é o desmonte das convicções fundamentadas em dogmas e formas preconcebidas advindas das tradições. Enfim, o processo de aprendizado é a dúvida como aquilo que movimenta a consciência. E a dúvida diz não.

A dúvida, como princípio de desmonte das verdades prontas, preconcebidas e acabadas de formas de vida e de pensar,é aquilo que torna possível o respeito e reconhecimento do Outro. Mas, para os novos fundadores da religião doutrinária do Escola sem Partido isso é abusivo, e claro, porque eles são mais inteligentes que Freud, Nietzsche, Pascal, Montaigne, Einstein etc. etc…

Será que voltamos aos tempos de Marx em que a liberdade de discussão era proibida? “A história se repete como farsa”, diria o velho barbudo calhorda. Por isso, o incômodo gerado pelas suas ideias é vivo e presente, principalmente numa sociedade cortada pelas contradições de uma desigualdade que funda a própria sociabilidade, ou em termos simples, funda a forma de pensamento e interação social.

Marx sabia que estava contribuindo grandemente para humanidade ao estudar cerca de doze horas por dia – por vezes, até dezesseis – para legar ao mundo sua maior obra. Com imensas dificuldades financeiras – chegou a ficar, por alguns dias, com o filho preferido morto dentro de casa por não ter dinheiro para enterrá-lo – não perdia o humor. Por ler e escrever, sentado o dia inteiro, adquiriu enormes e dolorosos furúnculos e numa carta cheia de ironia, amarga e viva, escreveu ao seu amigo Engels:

A burguesia enquanto viver, há de sempre lembrar de meus furúnculos!

Está aí o Escola sem Partido para não deixá-lo mentir.

 

[1] Este pequeno artigo é uma continuação da discussão anterior sobre a formação do fascismo.

[2]Escritor e mestre em filosofia, atualmente é doutorando em ética e filosofia política pela Universidade Federal de São Paulo.

 

 

 

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