Debate Destaque

Nós, negros a sós, na companhia de outros a sós, seremos todos mortos!

 Captura-de-Tela-2014-10-13-as-21.34.23

Por Douglas Belchior

Gente, na humildade e com respeito:

Essa onda de ativismo independente, individual, mascarado de coletivismo é muito perigoso. Perigoso CONTRA nós.

Esse papo de que partidos, sindicatos, associações, igrejas, nada disso presta ou vale a pena é um tiro no pé da negrada, da classe trabalhadora como um todo.

Eu sou dos que acreditam e se dedicam à ORGANIZAÇÃO POLÍTICA. Na ação orientada a partir de um projeto político, esse sim coletivo, comunitário, revolucionário.

Esse papo de “cada um cada um”, do “eu me represento”, apresenta, na verdade, uma radical dificuldade em construir coletivamente, no coletivo do mundão, com suas contradições e problemas. Organizar a vida e as lutas com “iguais” é relativamente fácil. Difícil é construir nas diferenças. Aí está o desafio.

 

Cada um de nós, coletivos de um só, armados e revoltados, atirando cada um pra um lado, e quase sempre atingindo, machucando e matando entre nós mesmos, só ajuda e facilita o trabalho do inimigo.

E não estou falando de partidos meramente eleitorais. Não estou falando de eleições, embora elas possam fazer parte da tática. Me refiro à política na acepção original do termo.

Se as instituições, os partidos, os sindicatos, as igrejas, as associações, os movimentos como um todo estão corrompidas – e eu concordo que em sua maioria estão – ultrapassadas na forma, na linguagem e no objetivo, que disputemos os espaços ou organizemos as novas formas, mas que estejamos juntos, unificados e que nos esforcemos em construir um projeto comum. Cada um de nós, coletivos de um só, armados e revoltados, atirando cada um pra um lado, e quase sempre atirando, machucando e matando entre nós mesmos, só ajuda e facilita o trabalho do inimigo. A direita histórica racista e fascista, o conservadorismo, o ódio de classe, o machismo e a homofobia violenta surfam nas ondas de nossa desorganização, desarticulação, desunião. Não percebem?

 

sos

Ao ver o plenário da Galeria Olido lotado na atividade desta semana, com Malaak Shabazz, filha de Malcolm X, (http://goo.gl/JCGs9V), repleto de negras e negros, altivas, fortes, radicais, revoltados, eu imaginei: Porra! Quanto potencial revolucionário! Quanta energia! Quanto poder! Imagine isso organizado, unificado, junto, apontando sua energia e seu ódio aos reais inimigos!

Nossa negrada é foda! Ocupam espaços de poder, vestem ternos e melhoram a qualidade do destilado, falam com as massas, milhões os seguem. Mas e nosso povo? Ficam famosos as vezes na política, mas quase sempre jogando bola, no coro do batuque ou no solar das cordas, na tela plana na novela, nas rimas e no flow, mas e a organização do nosso povo pra lutar? Quando lembram da vida real nos seus versos, na sua arte, são endeusados. Foda-se! E o que fazem para contribuir com a organização real do levante negro e periférico? Palavras apenas, palavras pequenas, palavras ao vento! O quanto as novas gerações periféricas, e a negrada mais jovem em especial, estão ou não influenciadas pela dinâmica individualista e de afirmação de um orgulho negro vazio de conteúdo, muito parecido com o que vários dos famosos são?

Que foda! Que triste! Que merda!

Irmãs, irmãos, entendam: Representatividade importa. Eu concordo. Mas enquanto um de nós estiver na merda, ter um nosso vestindo e comendo bem, não será suficiente. Somos um povo. Precisamos pensar enquanto povo. Construir um projeto de poder do povo e essa construção se dá, caso brasileiro, a partir do povo negro, seguimento majoritário da classe.

Ajudo a construir a Uneafro. É um movimento que se dedica à uma prática. Busca, com enormes limitações, um horizonte de organização e projeto político. Mas sabemos que não será daqui que surgirá o “algo novo” capaz de unificar os negros e a classe trabalhadora. Outras organizações e movimentos muito importantes e atuantes se dedicam à mesma tarefa. Precisamos reunir essas forças. Precisamos nos tocar, reunir nossos corpos mas antes, nossas mentes.

Enquanto um de nós estiver na merda, ter um nosso vestindo e comendo bem, não será suficiente. Somos um povo. Precisamos pensar enquanto povo.

E quem é só. E quem é só, acompanhado de outros a sós, permanecerão a sós, a não ser que se reúnam e se organizem politicamente. Se não em formas que já existem, em novas formas.

Vivemos mais um mês de novembro, quando celebramos a Consciência Negra. E que consciência alcançamos?  Somos negras e negros de uma das nações que mais humilha negras e negros no mundo; das que mais aprisiona negras e negros no mundo; das que mais mata negras e negros no mundo.

 

images (1)

Temo que nós, negros a sós, na companhia de outros a sós, sejamos todos mortos.

Não falta opressão. Não falta violência. Não falta dor.

Falta nós voltar a ser nós.

Por onde começar? Começamos há 500 anos.

Estamos no meio do caminho. Bora corrigir a rota e seguir em frente.

Zumbi vive!

Vive Dandara!

 

 

 


Publicidade colaborativa

Presenteie camisetas da Uneafro-Brasil

A Uneafro-Brasil está com novos modelos de camisetas engajadas e temáticas de valorização da cultura negra brasileira. Conheça e faça seu pedido. Com isso, além de adquirir um produto de qualidade, beleza e com uma mensagem de consciência negra, de quebra contribui para o auto-financiamento do trabalho sócio-educacional promovido pela Uneafro nas periferias de São Paulo e do Brasil.

Valor único para todas as peças, R$ 30,00 + frete.
Tamanhos (P, M, G ou GG), medidas e quantidades devem ser informadas no campo de descrição do produto.

Conheça esses e outros modelos e faça seu pedido AQUI

 

1185010_161445260720070_1710572108_n943354_161445417386721_1327929719_n 541394_161445327386730_92739506_n  150696_161445367386726_1458581424_n1230010_161445250720071_94091394_n8312_161445217386741_536225636_n1229958_161445210720075_2009434214_n      994828_161445347386728_151713548_n

Você também pode gostar