Política

No dia do golpe, me lembrei de 2002

Dirceu e Palocci em fevereiro de 2004: na chegada do PT ao poder está a raiz de seus problemas (Foto: Wilson Dias/ABr)

Dirceu e Palocci em fevereiro de 2004: na chegada do PT ao poder está a raiz de seus problemas (Foto: Wilson Dias/ABr)

por Douglas Belchior

Era primeiro semestre de 2002.

Eu era militante orgânico do PT. Me alinhava à chamada “esquerda” petista. Me opunha à direção majoritária capitaneada por Lula e Dirceu. Em bloco, esses grupos de oposição interna (eu integrava o Plenária “A Luta Faz a Lei”), se colocavam contra a ampla política de alianças que se desenharia a seguir.

O Congresso Estadual do partido em SP ocorreu num domingo. Não me lembro mês e dia exato. O ponto alto seria o debate sobre política de alianças. A direção majoritária do PT queria aprovação em plenário uma aliança em nível estadual com o PMDB. José Genoino, após um intenso processo de prévias internas, saíra vencedor da disputa da indicação à candidatura para governador, contra Renato Simões, pré-candidato das forças mais à esquerda.

Grupos de juventude organizada destas forças de oposição interna articularam uma ação direta para esse momento do congresso. E assim fizemos:

No momento da defesa da proposta de aliança com o PMDB ocupamos o palco, tomamos o microfone e, em meio à confusão e pancadaria, proferimos palavras que jamais saíram da minha memória: “Aliança e diálogo é com o povo, é com os trabalhadores! Não é com a burguesia! Não é com a oligarquia!”

As notícias e as imagens rodaram o Brasil. Repercutiu muito. Foi notícia inclusive no Fantástico daquela noite, na rede Globo.

Apesar do sucesso da ação direta, aprovaram a orientação das amplas alianças. O mesmo aconteceu nos estados, política que estava sintonizada com a tática da disputa presidencial que elegeria Lula presidente e o empresário José Alencar, vice.

Paulo Frateschi, então presidente estadual do PT, em editorial do boletim interno Linha Direta, chamou aquela mobilização de ação “promovida por fascistas”. Fomos chamados de fascistas por nos opor à aliança do PT com os grupos que hoje deflagram um golpe de estado.

A tática de alianças já era parte de um posicionamento político e econômico que se explicitaria na famosa Carta aos Brasileiros, documento que selou o compromisso do PT com as forças do mercado. Ali estava também a sinalização de sua opção pelas alianças fisiológicas para a governabilidade, origem da crise que vivemos.

O que se seguiu nós sabemos. Todos os que se opunham drasticamente à política do partido-governo foram expulsos ou se sentiram obrigados a deixar o PT. Foi meu caso, logo após a reforma da previdência de Lula.

Não sou da turma do “não foi por falta de aviso”, mas acho importante o registro histórico.

Neste processo de construção do golpe parlamentar-jurídico-midiático foi importante não vacilar e tomar partido do lado histórico que nos cabe. Agora é necessário que as esquerdas se unam contra o governo golpista e as tentativas de retiradas de direitos sociais.

Essa unidade deve considerar bases sociais petistas, sem dúvida. Mas, por uma questão de coerência, é preciso questionar a liderança petista nas mobilizações daqui pra frente. A história nos mostra que não se pode e não se deve confiar.

A decisão do PT em não vetar as alianças com o PMDB nas eleições municipais deste ano é mais um sinal. Em Brasília já se fala nos bastidores que parlamentares petistas não querem oposição sistemática e pretendem reconstruir pontes com o PMDB. Ou as esquerdas se deixarão liderar por aqueles que nos trouxeram à beira do precipício?

Eu não confio. Você confia?

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