Destaque Escrita da história

No Brasil até o Réveillon é racista

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Por Douglas Rodrigues Barros

Quais fantasias não se pode ter ao se desejar que no próximo ano tudo seja diferente? Se os romances contam as histórias dos desejos humanos, tais desejos se fundam sempre na tentativa de mudanças porque o desejo é sempre carência. E mudanças é o que nosso país mais necessita, estamos num país carente de mudanças. Não somente uma mudança de gestão, mas, uma mudança espiritual profunda que acabe de vez com esse jogo absurdo manifestado por nossas próprias ações cotidianas. Por que começo escrevendo isso?

Mais um ano se foi e durante uma curta viagem para Parati me deparei com o mesmo, aquilo que não se vai, o que se tornou permanente e naturalizado. Há algo de ritual no nosso cotidiano, um fantasma que fingimos não ver para não ficarmos constrangidos pela sua constante presença. Denunciar esse fantasma deve ser nossa tarefa, pois, sabemos que mesmo nos momentos mais corruptos da história, a baixeza tem restrições. Mas que restrições pode existir para algo tão naturalizado por nós? Por uma baixeza tão vil como a prática do racismo e da segregação social?

Como explicar que num dia de felicitações e alegrias – de tentativa de mudanças em nós mesmos, de algo dado como uma alegria universal – se tenha que passar por duas guaritas repletas de guardas para se chegar numa praia? Qual nome dessa praia, agora, privatizada e “higienizada” de gente diferenciada? Laranjeiras. De fato, a loucura dos outros jamais nos tornara sensatos e sensatez é o que falta numa sociedade dividida por muros e totalmente desigual como a nossa. A loucura de aceitar a segregação como saída só pode cobrar seu quinhão: a revolta é sempre resultado da reflexão.

Laranjeiras com suas águas transparentes e límpidas, com seu céu azulado e belezas incomensuráveis é a nossa Israel em terras tupiniquins, todo o seu entorno uma nova Palestina. Sob o seu muro está a inscrição de nossa faixa de Gaza. Eis aí o resultado de séculos de exploração, de fundamentação econômica racista, de segregação social e cultural.

A pior aristocracia, sem dúvida, é a aristocracia do dinheiro; aquela que transforma a política num balcão de negócios e banca seus escolhidos para administrarem a coisa pública. Entretanto, o tom aqui não é moralista; não torça o nariz daí achando que estou colocando a culpa nos magnatas do condomínio fechado de Laranjeiras. Eles só são a personificação de nosso modo de vida sob a tutela do sistema econômico que se formou em nossas costas. São um resultado da naturalização da opressão em suas diversas formas e, que por isso, é um verdadeiro celeiro laboratorial visto por todo mundo. Como disse em algum momento Paulo Arantes; o Brasil se tornou sem dúvida um exportador de medidas radicais de segurança e conformação contra o livre direito de ir e vir.

É um acinte humilhante e que denigre qualquer cidadania não poder chegar a praia, ou ser interpelado no seu “direito sagrado de liberdade” por seguranças privados. Duas guaritas, documento de identificação e sorriso dos guardas me fizeram crer que eu fosse um estrangeiro em minha própria casa.

Mas, como dizem por aí e como muitos aceitam: É para sua segurança! Para minha segurança? Em nome da segurança estão tolhendo a liberdade de ir e vir, além porno do acesso a coisa pública, estão nos privando do espaço natal, do jardim que percorremos nossa infância, estão nos privando do trato humano e de qualquer noção de cidadania. Privatizar a praia é sinal da aristocracia do dinheiro, e esta é insuportável e predatória.

Até no réveillon sou obrigado a refletir sobre o racismo e a segregação social.

Para minha segurança? Sem essa por favor!

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