Direitos Humanos Escrita da história

“Não temos o que comemorar no dia das mães”, diz Debora, das Mães de Maio

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“… era finados.

Eu parei em frente ao São Luís do outro lado

E durante uma meia hora olhei um por um

e o que todas as Senhoras

Tinham em comum:

a roupa humilde, a pele escura,

o rosto abatido pela vida dura.

Colocando flores sobre a sepultura.

Podia ser a minha mãe, que loucura…”

Racionais Mc’s

 

Por Douglas Belchior, com fotos do facebook das Mães de Maio

 

Este Maio de 2016 marca os 10 anos dos Crimes de Maio, a maior chacina praticada por agentes estatais na história contemporânea do Brasil. Os poucos inquéritos policiais instaurados foram arquivados. A letalidade policial em São Paulo continua uma das mais altas do mundo. Só neste ano, em janeiro e fevereiro a polícia matou 137 pessoas, uma média de duas execuções por dia. E esses são dados oficiais. Imagine você o que deve ser os números reais. Há ainda, os conhecidos casos que envolvem grupos de extermínio, possivelmente compostos por policiais militares, que a cada período promovem matanças, tais como as ocorridas em Osasco e Carapicuíba, há alguns meses. Para marcar o retorno deste Blog à ativa, fomos ao encontro de Debora Maria da Silva, fundadora e coordenadora nacional do Movimento das Mães de Maio: 10 anos depois, o que mudou na segurança pública, no governo e na polícia, em relação à violência do Estado? Ela responde a esta e outras perguntas, num exclusivo e emocionante bate papo. Assista e leia abaixo os detalhes sobre as ações que marcarão os 10 anos de luta das Mães de Maio.

 

 

Me lembro bem daquela sexta feira, 12 de maio de 2006. Era véspera do dia 13, data que marca o aniversário da “abolição da escravidão” no Brasil. Em São Paulo, o movimento negro de cursinhos comunitários promovia uma ação direta para denunciar o que chamamos “Falsa Abolição” e para exigir a aprovação das Cotas Raciais em Universidades Públicas, à época ainda longe de se tornar lei federal. Com mais de 2 mil manifestantes (embora a Folha de São Paulo tenha registrado apenas 300), fechamos a Av. 23 de Maio e causamos o maior congestionamento daquele ano na cidade. Dali, seguimos para a faculdade de Direito da USP, onde ocupamos salas de aula e tomamos microfones dos professores para discutir com os estudantes daquele espaço de privilégio branco, a importância das cotas. Teríamos alcançado o objetivo central da ação, que era dar visibilidade às reivindicações, talvez até com fotos em capas dos principais jornais no dia seguinte. Mas o que ocorreria a partir daquela noite tomaria as atenções do país e marcaria de sangue, mais uma vez, a história contemporânea do estado de São Paulo.

Entre os dias 12 e 26 daquele mês, a partir da ação combinada da Polícia Militar e sob a justificativa de combate ao crime organizado, 564 pessoas foram brutalmente assassinadas. Desde antão, familiares de vítimas do massacre que a grande imprensa batizou como “Ataques do PCC”, mas que os movimentos chamam de “Crimes de Maio de 2006”, denunciam a inoperância das investigações, a não apuração dos crimes e falta de responsabilização do Estado e de seus agentes.

 

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Os Crimes de Maio 10 anos depois

505 civis e 59 agentes oficiais assassinados em uma guerra promovida pelo Estado

 

O que grande mídia chamou de “ataques do PCC” foi, como a história demonstrou, uma reação à decisão da Secretaria de Administração Penitenciária, em transferir mais de 700 presos para Presidente Venceslau, penitenciária de segurança máxima no interior de São Paulo. A ação teria sido motivada pela interceptação de telefonemas que davam conta de um suposto planejamento de rebeliões programadas para o Dia das Mães, 14 de maio de 2006.

Entre os presos transferidos, estava o grupo considerado cúpula do PCC, entre eles estava Marcos Willians Herba Camacho, o Marcola, que segundo a polícia, era o “cabeça” da organização. O “partido”, em reação ao procedimento, provocou rebeliões em dezenas de penitenciárias e nas ruas promoveram ataques contra as forças de segurança tendo como alvo Delegacias, bases da PM, veículos oficiais, CGM’s e até o Corpo de Bombeiros. A reação inconsequente e desproporcional do Estado, através de suas forças armadas, foi o deliberado assassinato de mais de 500 pessoas, que de maneira não aleatória, foram mortas nas periferias da capital, interior e na baixada santista.

“Todo mundo voltando, correndo, com medo. O telefone ficou mudo”, lembra Débora em nossa entrevista: “Na minha sala comecei a sentir aquele cheiro forte de carne com sangue que me sufocava”, lembra emocionada a tarde do dia em que seu filho, Edson Rogério Silva dos Santos, foi assassinado com 5 tiros.

A correria e o medo não se deram apenas na baixada santista. A cidade de São Paulo parou. As principais avenidas e rodovias ficaram desertas. Todo comercio baixou as portas. Escolas e universidades cancelaram as aulas. Repartições públicas fecharam e hospitais atenderam apenas as emergências. Empresas de ônibus recolheram sua frota enquanto viam dezenas de seus carros incendiados. Milhões de pessoas ficaram sem transporte. A imprensa hegemônica, grande responsável pela massificação do clima de terror e do sentimento de medo, mais uma vez alcançou o objetivo: conquistou o apoio da população para a ação violenta que se daria a partir daí pelos dias que se seguiram, o que resultaria nas centenas de mortes de pobres e negros em diversos territórios periféricos de São Paulo, pelas próprias mãos dos agentes do Estado.

Débora, que faz aniversário no dia 10 de maio, afirma: “Não temos o que comemorar no dia das mães. Não tenho porque cantar parabéns pra você. O Estado tirou meu filho e continua matando esses meninos”. A fundadora do Movimento das Mães de Maio dedica sua vida para organizar familiares de vítimas de violência e denunciar ao mundo o genocídio promovido pelo Estado brasileiro.  Ela diz que a força para superar a dor e se dedicar à luta contra a violência vem de seu filho: “Senti a presença do meu filho da cama do hospital. No começo achei que era alucinação por conta dos remédios. Mas depois eu entendi sua mensagem: ‘A senhora tem que lutar por justiça, lutar pelos que estão vivos’. Ele deixou essa missão pra mim.”

 

Celebração dos 10 anos de luta e de lembrança dos Crimes de Maio

 

Para marcar os 10 anos de luta do Movimento das Mães de Maio, uma série de ações de mobilização e formação será promovida, com o intuito de fortalecer as lutas comuns contra o genocídio do povo negro, indígena, pobre e periférico no Brasil e no Mundo. Com o tema “Justiça, Reparações e Revolução”, a proposta é fortalecer a organização autônoma e pensar coletivamente os próximos passos das lutas.

Em São Paulo os encontros ocorrerão entre os dias 11 e 13 de Maio, em diversos espaços da cidade. Na quarta-feira (11/5) ocorrerá o credenciamento dos participantes, a apresentação do Encontro e as primeiras trocas; no segundo dia (12/5) haverá discussões temáticas em GTs compartilhados e o pré-lançamento simbólico do Memorial dos Crimes de Maio e das Vítimas do Genocídio Democrático, no Centro Cultural do Jabaquara. Haverá ainda na noite do dia 12, na Quadra dos Gaviões da Fiel Torcida, um ato cultural em homenagem a todas as Mães e Vítimas da “Era das Chacinas”, com a presença do rapper Eduardo e outros guerreiros e guerreiras do Hip-Hop Organizado; no terceiro dia (13/5), haverá uma plenária final na parte da manhã no Salão Nobre da Faculdade de Direito do Largo São Francisco e no fim da tarde concentração para o “Cordão da Mentira”, que sairá pelas ruas do centro da cidade, com o tema “Pelos 10 anos dos Crimes de Maio e todas as Vítimas do Genocídio Democrático” e “Contra a Falsa Abolição”.

A programação continua no Rio de Janeiro, nos dias 14 e 15 de maio, em atividades promovidas pela Rede Contra Violência e Fórum de Juventudes do RJ.

 

Programação completa:

 

QUARTA-FEIRA (11/5)

MANHÃ – A partir das 8hs: Chegada, Acomodação e Credenciamento dos Participantes no Hotel San Raphael (Largo do Arouche – São Paulo-SP)

TARDE – A partir das 14hs: Abertura Oficial do Encontro com as Apresentações Iniciais, Intervenções das Mães de Maio, Rede Contra Violência, Fórum de Juventudes do RJ, Mães Mogianas, Mães de Osasco e de outros Estados e Convidadas Internacionais

NOITE – A partir das 19hs: Programação Cultural – Sarau com Coletivos Periféricos de São Paulo e as Mães do Brasil e Internacionais

 

QUINTA-FEIRA (12/5)

MANHÃ – A partir das 8hs: Grupos de Trabalho Temáticos – por Pautas/Lutas, no próprio auditório do Hotel San Raphael

TARDE – A partir das 14hs: Pré-Lançamento Simbólico do Memorial das Mães de Maio no Centro Cultural do Jabaquara – Participação das Madres e Convidados Internacionais + Intervenção Cultural do Bloco Afro Ilú Obá de Min de Mulheres Negras, e Exposição Corpa Negra, da guerreira Carolina Teixeira (ÚteroUrbe) do Coletivo Fala Guerreira

NOITE – A partir das 19hs: Programação Cultural – Atividade Político-Cultural na Quadra dos Gaviões da Fiel, junto com as torcidas organizadas de luta, as Mães e os Secundaristas de Luta, com o rapper EDUARDO e diversos grupos de Hip-Hop de São Paulo.

 

SEXTA-FEIRA (13/5)

MANHÃ E TARDE – a partir das 9:00hs, no Salão Nobre da Faculdade de Direito do Largo São Francisco: Intervenções de Convidados / Plenária Final socializando os Trabalhos e Propostas.

APROVAÇÃO E APRESENTAÇÃO À SOCIEDADE DA “CARTA DAS MÃES EM LUTA: PELO NASCIMENTO DE UMA NOVA SOCIEDADE IGUALITÁRIA, JUSTA, LIVRE E PACÍFICA”

FINAL DA TARDE – a partir das 17hs: Concentração para a saída do CORDÃO DA MENTIRA pelas ruas do Centro de SP, com o tema “Pelos 10 anos dos Crimes de Maio e todas as Vítimas do Genocídio Democrático” e “Contra a Falsa Abolição”

NOITE: Lavagem da Rua 13 de Maio – evento Tradicional de Denúncia da Falsa Abolição realizado pelo Bloco Afro Ilú Obá de Min no bairro do Bixiga.

 

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