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MPL e violência da PM: das responsabilidades de Alckmin e Haddad

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Por Douglas Belchior

Estive na Paulista ontem, 12 de Janeiro de 2016, no ato convocado pelo Movimento Passe Livre, em função dos aumentos das tarifas dos ônibus municipais de SP, do trem e do metrô. De pronto se percebia o que estaria por vir. A presença desproporcional da polícia e seu vasto armamento era a senha. Tinha que dar merda. E deu.

Pudera. Sequer um quarteirão fora totalmente ocupado pelos manifestantes. O cerco covarde, seguido do clássico uso “desproporcional da força”, resultou num massacre, amplamente divulgado pelas redes de comunicação alternativas. Percebi o quanto meu corpo não é mais o mesmo. Nem tão leve, nem tão rápido. E senti mais medo que em Junho de 2013.

Ali, me senti agredido e violentado pela PM, mas sobretudo pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), o comandante em chefe das armas do Estado. Mas também pelo prefeito Fernando Haddad (PT). E quero dizer o porquê.

 

Se quiser se diferenciar, Haddad que cancele o aumento e diga que não admite a barbárie nas ruas de sua cidade. Até lá, na repressão aos protestos contra o aumento, a PM age tbm em seu nome!

Antes ainda, um registro: por mais que se possa discutir e até discordar da forma ou das táticas utilizadas pelo MPL em suas mobilizações – e eu, particularmente não discordo – sua causa é nobre. Estão corretos, a meu ver, não que isso importe, no mérito da questão relacionada ao direito à cidade e a crítica em relação a situação do transporte público. São, portanto, legítimos.

Existe um “tema gerador” dos debates e da mobilização contra o aumento das tarifas (quem gosta de Paulo Freire sabe bem a importância e o significado dos temas geradores). E nesse caso, qual é o tema gerador?

O aumento do valor das tarifas, claro!

Tudo o que decorre a partir daí é sim de responsabilidade (também ou principalmente) daqueles que deram vida ao tema gerador. E quem são?

A medida em que o governador do estado de São Paulo e o prefeito da capital impuseram o tema, este gerou debate e mobilização contrária. Para garantir a imposição de suas decisões, os governantes tem à seu serviço o poder das armas do estado.

Foi assim ontem. É assim sempre.

 

Óbvio que o comando da PM está nas mãos de Alckmin e não de Haddad. Mas esse está a serviço daquele, pela manutenção da decisão política de ambos.

Pouco importa, para quem inala gás lacrimogêneo, sente o cassetete ou é atingido pelos tiros, de quem é a palavra de ordem para o ataque ou a jurisdição à qual responde o batalhão policial. Importa que a violência acontece. E que esta está à serviço da imposição do tema gerador.

Digo isso por perceber a insatisfação de vários correligionários e apoiadores do prefeito diante da co-responsabilização pela violência na Paulista.

Óbvio que o comando da PM está nas mãos de Alckmin e não de Haddad. Mas, fato incontestável neste caso, é que esse está a serviço daquele, pela manutenção da decisão política de ambos. Na política relacionada ao transporte público, Alckmin e Haddad se igualam. Ambos fazem política para deleite e satisfação dos interesses dos empresários do setor. Não há como negar isso.

Que Alckmin e seu governo são fascistas e sua polícia genocida, não tem dúvida. Mas como explicar, pelo amor de Deus, a sintonia das ações entre esses dois governos que se dizem tão diferentes?

Incompreensível, do ponto de vista político, a decisão de Haddad em aumentar as tarifas. Pior: combinar o aumento com Alckmin; Pior ainda: não perceber o quanto se deixa desgastar muito mais que Alckmin em toda essa confusão, se não, vejamos:

Alckmin aumenta as tarifas do trem e do metrô, dois meios de transportes de massas; Haddad de um só, os ônibus municipais; A decisão de Alckmin tem impacto econômico muito maior, uma vez que ela irradia não só na capital, mas em toda a região metropolitana. E em dobro.

Mas onde está o nó, o drible, a finta, a caneta, a bola por debaixo das pernas que Alckmin enfia – repetindo 2013 – em Haddad?

O MPL, acertadamente, elege a capital da maior cidade da América Latina como palco de suas manifestações. A tática de paralisar o trânsito – mesmo sem querer – é, de longe, a de maior impacto numa cidade que depende de carros e rodovias para existir. E em rodovias não transitam trens ou metrôs, e sim ônibus.

Não se trata de lembrar de Haddad e poupar Alckmin, como gritam alguns. Tratam-se de condições objetivas de mobilização e sua efetividade. Isso somado ao controle absoluto dos grandes meios de comunicação e seu consistente bloqueio à imagem do picolé de chuchu, está completa a equação: Haddad se dá mal. Alckmin sai ileso.

E os prefeituráveis Russomano, Datena, João Doria Jr. e Marta agradecem.

Se quiser se diferenciar de Alckmin e do PSDB, Haddad que chame uma coletiva de imprensa, declare o cancelamento do aumento da tarifa dos ônibus e diga que não admite a barbárie promovida pela PM nas ruas de sua cidade.

Até lá, na repressão aos protestos contra o aumento, a PM age também em seu nome.

 

 

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