Denúncia

Ministério dos Transportes promove campanha racista nas redes e nas ruas

 

Por Douglas Belchior

 

Todo ano cerca de 23.100 jovens negros de 15 a 29 anos são assassinados no Brasil. São 63 por dia. Um a cada 23 minutos. Entre 2002 e 2012, a taxa de homicídios da população branca caiu 24,8%, enquanto a da população negra cresceu 38,7%, o que significa que os negros morreram 72% mais que os brancos. Apesar dos reiterados estudos, como a do Mapa da Violência 2016 que nos traz os números acima, e da contínua campanha de movimentos negros em denunciar o genocídio, para o governo Temer e seu Ministério dos Transportes, quem mata é o jovem negro.

 

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É assim que um jovem negro é retratado na campanha publicitária do Ministério dos Transportes, lançada no dia 2 de janeiro. A intenção parece boa: manter a população alerta para o perigo do uso de telefone enquanto dirige. O problema está na forma e no conteúdo, a começar pelo tema: “Gente Boa também mata”.

A campanha, veiculada em redes sociais através e folders e vídeos, além de cartazes em pontos de ônibus e aeroportos, traz pessoas que resgatam animais na rua, fazem trabalho voluntário e plantam árvores, mas que, de maneira irresponsável, em seguida atendem telefone ao volante e causam acidentes.

No caso do jovem negro, a personagem é de um estudante “acima da média”. Curioso é que mesmo quando o contexto não combina com a forma como normalmente – e equivocadamente – o negro é retratado em propagandas, neste caso sim, é negro. Talvez porque, como o objetivo é relacionar a pessoa à uma ação violenta, seria bom que fosse negro. Exagero meu? Pois imagine você, se o objetivo da propaganda fosse especificamente destacar um aluno brilhante, acima da média, “o melhor da sala”, qual a probabilidade de a Agência e/ou Governo escolher um jovem negro para a campanha publicitária? Pense.

A estupidez racista cega os bem intencionados. Isso piora num contexto de governo racista como o atual, afinal, de um lado temos Agências de Publicidade ocupadas por profissionais em sua maioria tomados pelo senso comum preconceituoso ou, na melhor das hipóteses, não familiarizados com questões raciais e da diversidade em sua prática de trabalho. De outro lado, temos a Secom – Secretaria de Comunicação Social do governo federal sob gestão golpista, que teria entre suas atribuições, a revisão e o controle de qualidade dos produtos contratados. Aqui temos um exemplo explícito do que os movimentos negros caracterizam como prática de racismo institucional na medida em que uma ação direta do governo/estado – responsável em primeiro grau pela promoção da igualdade racial, faz exatamente o contrário.

Não seria muito exigir senso de percepção sobre o significado de espalhar em um país como o Brasil, com seu histórico de 388 anos de escravidão negra e outros 128 de criminalização deste povo, uma campanha que traz um jovem negro acompanhado por letras garrafais, com a seguinte ideia: “Cuidado, ele pode matar”.

A campanha publicitaria é ruim como um todo. Desvaloriza ações nobres de solidariedade e as relaciona a irresponsabilidade e homicídios. Sobretudo seu resultado parece representar objetivamente o que a parcela mais conservadora da sociedade, muito bem representada por este governo, pensa sobre a comunidade negra e sobre as condutas proativas, comunitárias e solidárias das pessoas.

O mínimo que se exige e espera é que esta campanha seja retirada de circulação imediatamente e que a Secom-PR e o Ministério dos Transportes se desculpem publicamente junto a população negra brasileira, por esse ato deplorável, irresponsável e racista.

 

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