Política

Mas é só a elite branca que odeia o PT e apóia impeachment e ditadura?

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Foto: Leon Cunha

Por Douglas Belchior

Pé no chão:

Muita gente parecida comigo, que mora perto de mim, pega o trem bem cedinho e ganha salário mínimo concorda com muitos dos apelos e reclamações levados às ruas pela multidão nas ruas das capitais brasileiras nesse 15 de março.

Talvez não tenham ido, mas essas pessoas existem. E elas também estão insatisfeitas com tanta corrupção, com políticos ladrões do dinheiro público, com o escândalo da Petrobrás, com a ineficiência dos serviços públicos, com a violência generalizada, com a falta d’água, com preço da energia elétrica e da gasolina, com o desemprego, a recessão e por aí vai. E é assim mesmo, tudo misturado. O alvo é e sempre será o governo da vez, desde que super exposto pela mídia.

Até aí, normal. O protesto é justo e faz muito sentido. Dilma terminou mal e recomeçou pior. Prometeu e não cumpriu. Em certa medida, traiu apoios que foram fundamentais à sua vitória eleitoral.

Mas há um problema maior, acredito: a identificação das causas e as propostas de solução.

 

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Foto: Leon Cunha

 

Cabe a preocupação com o fato de, como escrevi em outro texto, aquele mano na porta do bar, o cidadão comum trabalhador, pobre, morador de periferia, a maioria da população, defender o mesmo ponto de vista e as mesmas propostas de solução que a classe média reacionária e as elites brasileiras defendem.

Para essa elaboração, os grandes e únicos responsáveis pela corrupção endêmica no país e pela crise econômica atual seriam o PT e os governos Lula/Dilma. E isso não é verdade. Por outro lado, a solução seria o impeachment, ou novas eleições imediatas que elevem o PSDB ao governo ou ainda, no limite, uma intervenção militar. Ora, perceber meus iguais na defesa dessas e outras propostas do gênero, isso sim assusta.

E é o que se percebe.

A velha classe média e os grandes meios de comunicação sangraram, desde 2003, cada uma das iniciativas mais progressistas dos três mandatos do governo petista. Mesmo sendo esta a classe fartamente alimentada com grosso da política e dos recursos do Estado.

Essa sangria televisiva, essa permanente campanha em jornais, revistas e rádios, somados ao desgaste natural e aos erros do governo, resultaram num caldo ideológico de opinião e postura que desaguou nas ruas em junho de 2013, nas urnas em outubro de 2014 e de novo nas ruas neste dia 15 de março de 2015.

E o PT? E Dilma? Ali estão, encolhidos, amedrontados, reféns de si e de suas próprias opções. Pior: não parecem arrependidos, já que, inexplicavelmente, reafirmam tais opções na condução inicial deste quarto mandato.

 

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Foto: Leon Cunha

 

Repito apelos e argumentos:

Não há grandes diferenças entre a prática do PT no governo e o que se propõe o PSDB, ao menos no que diz respeito à 80% do orçamento da união e às suas práticas políticas. Tanto um quanto o outro prestam seus serviços aos mesmos senhores: o mercado, o capital e o interesse privado.

Mas é justo e necessário dizer: O PSDB e a oposição de direita não têm moral para apontar o dedo a nenhum mal feito. Não mesmo.

A mobilização e os protestos “Contra a Corrupção” e pelo “Impeachment da Dilma”, convocados por esses setores e que levaram milhões às ruas nesse dia 15 de março, foi um circo armado de maneira oportunista pelo PSDB de Aécio, aliados à grande mídia, especialmente, à Rede Globo.

A crítica despolitizada que alimenta a demonização de todos os partidos, como sendo iguais; De todas as instituições, como sendo ultrapassadas e burocráticas; Da política e dos políticos – todos e sem exceção – como sendo criminosos e responsáveis pela corrupção e maus feitos dos governos, só afasta ainda mais a população da participação política organizada e a torna alvo fácil do discurso oportunista e da manipulação.

É preciso disputar, não como uma defesa ao governo Dilma – indefensável que é -, mas como uma tarefa de disputa de mentes e corações para os valores progressistas, transformadores e de defesa dos direitos sociais.

Fortalecer e massificar temas nevrálgicos como democratização dos meios de comunicação,  reforma política, fim do financiamento privado de campanhas eleitorais, taxação de grandes fortunas, reforma agrária, fim do pagamento da dívida pública e sua auditoria e, o combate ao racismo, ao machismo, à homofobia e, sobretudo nesse momento, o repúdio a qualquer tipo de intenção autoritária, é fundamental.

Mais do que nunca, é preciso disputar a mentalidade e a opinião coletiva. E para isso é necessário pensar estratégias.

 

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Foto: Leon Cunha

 

Não acredito em uma reação do governo e do PT. Mas adoraria ver Dilma provar o contrário.

Sobretudo, acredito que movimentos, partidos de esquerda e lutadoras/es sociais – nisso incluo um minoritário setor do próprio PT, precisam aprimorar formas capazes de apontar as contradições e criticar o governo, sem que isso signifique o fortalecimento da direita histórica e das forças alinhadas ao PSDB e à Globo. E mais que isso: Se permitir construir uma ação unificada desde já e para o futuro, que não necessariamente negue o PT e suas experiências, mas que busque superá-lo enquanto um projeto político para o país.

Como ação prática imediata, partir para o ataque. E atuar em três frentes: 1) No investimento massivo às mídias alternativas e independentes do campo da esquerda; 2) No chamado ‘trabalho de base’ através da prática da educação popular para direitos humanos; 3) Num posicionamento e atuação aguda em relação à democratização dos meios de comunicação.

Ou seremos, não só o governo, mas toda esquerda brasileira, atropelados/as pela próxima marcha verde-oliva e amarelo-cobre?

 

 

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