Meios de Comunicação e Racismo

Mas a Cultura não é uma TV Pública?

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Jovens da periferia são excluídos das gravações do programa Manos e Minas da TV Cultura

Por Douglas Belchior

 

Em 2012 e 2013 lecionei Sociologia na E.E. Nanci Cristina do Espírito Santo, uma escola pública da rede estadual de São Paulo na cidade de Poá, divisa com outros três municípios: Ferraz de Vasconcelos, Itaquaquecetuba e o bairro do Itaim Paulista (São Paulo). Foram dois anos mágicos. Dar aula para jovens da minha própria comunidade, muitos deles filhos de amigos, vizinhos, parentes, adolescentes que vi crescer. Foi uma maneira de me enraizar ainda mais no território. Muitos desses alunos consegui levar para o Cursinho Comunitário da Uneafro. Alguns já estão na faculdade, outros seguem não só como estudantes do cursinho, mas já atuam como ativistas do movimento.

 

Acredito que o maior desafio para nós, professores comprometidos com a mudança radical da sociedade, com a mudança de paradigmas e dos valores do consumo desenfreado, do individualismo, da violência, do racismo, do machismo, da homofobia e de todas as formas de preconceitos, é a da disputa da mentalidade da juventude. E a escola é, sem dúvida, o principal ambiente dessa disputa. Nesse exercício cotidiano, uma das ferramentas que sempre utilizei foi a da cultura e das artes –em especial o rap e agora o funk.

 

São ferramentas fundamentais no diálogo com a juventude das periferias. Nesse sentido, posso dizer que um dos mais importantes momentos que vivi com meus alunos foram as três vezes em que organizei sua participação nas gravações do Programa Manos e Minas, da TV Cultura de SP, hoje apresentado pelo talentosíssimo Rapper Max B.O. O Manos e Minas é um dos poucos programas da TV aberta brasileira que traz como centro, a temática periférica, racial e cultural própria das periferias das grandes cidades.

 

 

A música e a arte negra, representada pela Cultura Hip-Hop e a presença de uma plateia composta por jovens, manos e minas, das periferias de São Paulo, sempre foram a alma do programa. E é exatamente isso que a direção da TV Cultura parece não valorizar.

 

 

Ao que parece, a participação da juventude periférica nas gravações do Manos e Minas já não serão permitidas. Falta de recursos? É o que dizem. Mas, a meu ver, muito mais falta de sensibilidade e de percepção da importância que esse espaço representa para os os jovens das periferias e para os que lutam por justiça.

 

 

A notícia do Noticiário Periférico, que replico abaixo, traz mais detalhes da lamentável notícia.

Mas a Cultura não é uma TV Pública?

 

 

 

 

De Noticiário Periférico

Eis que fomos surpreendidos novamente, e o tapete foi puxado justamente de onde se menos esperava! Quem diria, uma rede de televisão renomada, de tradição, com uma história de tantos anos como a TV Cultura, derrubar novamente um dos únicos programas de cultura periférica, o Manos e Minas, mas dessa vez aos pedaços.

 

O programa Manos e Minas, que é exibido pela TV Cultura desde 2008 (aos trancos e barrancos), já chegou a ser cancelado em 2010, quando o então novo presidente João Sayad resolveu abolir o programa de sua grade, junto com alguns outros. Hoje passamos por uma situação parecida.

 

O programa Manos e Minas, conhecido em quebradas de ponta a ponta por ser o que mais abre as portas para a nossa cultura de periferia dentro da televisão brasileira, seja aberta ou não, contava com uma plateia que não era só pessoas pagas para sentar, rir ou pegar aviõezinhos de dinheiro. Era composta de pessoas que realmente se importam, se interessam e seguem a cultura de gueto como meio e estilo de vida, e hoje não fazem mais parte do espetáculo, foram simplesmente retirados. O programa deixará de ser de auditório e passará a ter somente apresentador e convidados. Eles (a plateia) eram a imagem dos verdadeiros manos e minas, aqueles que tão na quebrada, fazendo o seu, dentro da TV, a possibilidade de apoio à difusão de um estilo que não pensa só em rebolar até o chão e que mostra a realidade, a visão e a profundidade do pensamento do periférico de hoje em dia.

 

Logo a TV Cultura, cria da Fundação Padre Anchieta, que justamente tem como meta, segundo eles mesmos, “dar prioridade a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas; promovendo a cultura nacional e regional e estimulando a cultura independente”, demonstra que, para quem interessa, o dinheiro sempre fala mais alto.

 

Depois de um texto gigantesco desse, só me resta dizer uma coisa: Lamentável.

 

 

Manos e Minas, sem manos e sem minas.

 

 

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http://www2.tvcultura.com.br/faleconosco/

 

 

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