Violência Policial

Mais uma chacina de jovens! Até quando?

Por Douglas Belchior

 

“Cê viu ontem? Os tiro ouvi de monte! Então, diz que tem uma pá de sangue no campão.” Ih, mano toda mão é sempre a mesma ideia junto: treta, tiro, sangue, aí, muda de assunto…

Os poetas dos Racionais Mc’s eternizaram grande parte dos elementos da realidade nua e crua de pretos, pobres e moradores de periferias de São Paulo e do Brasil. O que foi escrito por eles há 10, 15 ou 20 anos, é muito parecido com o que a população negra organizada, logo nas primeiras décadas seguintes a abolição da escravidão também denunciava. Aliás, não é nada diferente das denúncias que levaram à formação do Movimento Negro Unificado (MNU) no final da década de 70. A cor, a dor e o sangue que jorra hoje é do mesmo povo que passou pela vida como se fossem animais sem alma (como seriam os macacos) nos quase 400 anos de escravidão no Brasil. E decididamente não é diferente do que denunciamos hoje, ano de 2014 depois de Cristo.

Seguimos, em busca da fórmula mágica da paz.

 

Abaixo, um manifesto-denúncia sobre uma chacina na zona norte de São Paulo, que deixou três jovens mortos no último dia 16 de abril. O texto foi assinado por 17 entidades.

 

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Mais uma chacina de jovens. Até quando?

 

De Observatório de Juventude – Zona Norte SP 

 

Quarta-feira, 16 de abril de 2014, quase duas horas da madrugada.

Praça Sete Jovens, Jardim Tereza – Jardim Eliza Maria, distrito da Brasilândia, zona norte de São Paulo. Um grupo de pessoas conversa no gramado e nos banquinhos próximos das árvores de pitanga, goiabeira, eucalipto e ficus que ficam no lado da rua Pedro Pomar. De repente, segundo diversos relatos, dois homens encapuzados, chegam vindos da rua Carlos Lamarca a pé e, batem nos jovens e disparam contra eles.  Sem maiores explicações.

Na varanda da casa em frente, uma jovem grita e clama pela vida de seu irmão e dos jovens agredidos. Os assassinos saem correndo diante da coragem da moça, e descem a rua Pedro Pomar em direção à rua São Gonçalo do Abaeté.

Como saldo, mais três jovens assassinados covardemente:

Igor Caique Silva, 17 anos, morreu com um tiro nas costas;

Cleiton Martins de Oliveira, 18 anos, morreu com um tiro na cabeça;

Marcos Vinicius de Oliveira, 22 anos, morreu com 7 tiros em diversas partes do corpo.

 

Além das 3 mortes, dois ficaram gravemente feridos:

Rodrigo de Souza, 29 anos, levou 2 tiros nas costas;

Eberton Silva de Castro foi levado por seus familiares ao hospital, havia sido gravemente ferido por coronhadas, murros e pontapés na cabeça.

Outros jovens conseguiram escapar e sobreviver. A unidade móvel do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) logo aparece e leva dois feridos (Rodrigo e Cleiton, sendo que o segundo não resistiu e faleceu no hospital).

A ocorrência foi registrada no 72º distrito policial da Vila Penteado. Menos de uma hora depois destes crimes, numa agilidade que não é comum, policiais e a equipe do DHPP – Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa realizaram a “perícia” e levaram os corpos e projéteis do local. Deixaram na praça duas blusas com sangue, folhas de alumínio, choro, indignação e muitos questionamentos. Aqui, alguns deles:

1. Por que a perícia foi feita logo após os assassinatos e ainda na escuridão da madrugada?

2. Por que na mesma manhã da quarta feira, 16 de abril de 2014, policiais militares dentro de viaturas, passaram pelo local dos crimes ameaçando os jovens que lá estavam, dizendo “já morreram 3 esta madrugada, não fiquem por aí, que vai sobrar pra vocês também”?

3. Por que na quinta-feira, 17 de abril, jovens que colocavam faixas de protesto na praça foram abordados por um policial civil com distintivo e armado, que exigiu identificações e telefones? [Enquanto isso um motociclista passou com o capacete levantado e disse: “Olhaí, já ‘demos baixa’ em alguns não custa nada baixar outros”.]

4. Por que este mesmo policial, que ouviu a ameaça do motoqueiro, não tomou nenhuma providência e continuou sua abordagem como se nada tivesse visto ou ouvido?

 

Que praça é esta?

 

A Praça Sete Jovens leva este nome em memória dos adolescentes que foram vítimas de uma chacina semelhante a esta. No dia 1º de fevereiro de 2007, no escadão da rua Olga Benário, bem próximo à praça, no Jardim Tereza, acabou acontecendo uma grande tragédia, tratada na mídia como a “chacina dos 7 Jovens do Jardim Eliza Maria,  zona norte de São Paulo”.

Os jovens assassinados foram: Ewerton Damião Silva de Freitas, 18 anos; Rafael Jesus da Rocha, 20 anos; Douglas Ribeiro Francelino, 17 anos; Robson Oliveira Novais Cavalcante, 16 anos; os irmãos Francisco Itamar Lima da Silva, 17 anos e Antônio Elias Lima da Silva, 27 anos. Estes seis foram assassinados e um jovem ainda está vivo: Leandro Siqueira, o Mineirinho, com 19 anos na época.

Todos sem ficha criminal. Eram penas sete jovens da periferia, que conversavam entre si no final da tarde quando, segundo relatos, quatro ocupantes encapuzados saíram de um Fiat Palio declarando-se policiais, mandaram que eles virassem de costas e dispararam dezenas de tiros. Apenas um sobreviveu.

A promotoria da Justiça Militar apontou o envolvimento de integrantes da Polícia Militar em chacinas na região em 2008, quando foi assassinado o coronel da PM José Hermínio Rodrigues, na avenida Engenheiro Caetano Álvares, zona norte de São Paulo. Ele investigava o envolvimento de seus subordinados em grupos de extermínio. Os policiais acusados da morte do coronel foram absolvidos pela Justiça Militar em março de 2013. Outras chacinas foram esclarecidas tendo o envolvimento de PM’s que estão presos.

A Praça 7 jovens é utilizada por pessoas de todas as idades. Tem campo de futebol, quadra de basquete, pista de skate, palco aberto, dois espaços com brinquedos para crianças, a Escola Municipal Coronel José Hermínio Rodrigues, duas creches e uma unidade do SAMU.

 

A juventude se mobiliza e homenageia seus amigos e familiares

 

No domingo, 20 de abril de 2014, aproximadamente cem pessoas acenderam velas e vestiram camisetas com frases pedindo justiça e paz. Era um ato de luto pelos jovens assassinados e agredidos na praça, durante o samba realizado mensalmente ali por jovens moradores do entorno. Apesar de chocante, o episódio não foi noticiado pelos grandes veículos de comunicação.

A atuação de alguns policiais no episódio e depois dele sugere uma possível relação indevida e cúmplice com os assassinatos por parte de quem deveria defender as pessoas e a vida.

 

As perguntas que não querem calar

 

Quem são os criminosos?

Estão a mando de quem?

Por que policiais rondam a praça fazendo ameaças covardes e violentas?

 

Em primeiro de maio, mais mortos

 

Durante a escrita desta carta, na manhã de 1º de maio de 2014, chega a notícia de que no noite anterior, às 22h30 na rua Padre Manoel Honorato, no Parque Belém, a 650 metros da Praça Sete Jovens, dois homens descarregaram tiros de pistolas 9mm  e 380 em mais 5 jovens: dois primos foram mortos, Lucas Otavio da Silva Lima, de 17 anos, vidraceiro e Matheus Jackson da Silva, pedreiro. Outros 3 ficaram feridos: Bruno Erasmo Santos, 15 anos, estudante, Kelvin Robert Borges, 20 anos e Alan Custodio, 23 anos. Estes jovens estavam na calçada que eles, familiares, amigos e amigas conviviam. Suas vidas, de seus parentes e amigos acabam de sofrer uma agressão abominável.

Até quando?

 

Discursos para nos calar

 

Quando foram mortos os 7 jovens em 1º de abril de 2007, o que se ouvia era “que eram meninos envolvidos com o tráfico”. Eram apenas jovens e foram assassinados. Em 2008 policiais militares foram acusados de matar o Coronel José Hermínio Rodrigues (absolvidos em 2013, o Ministério Público estadual afirma que recorrerá da decisão da Justiça Militar) e outros policiais militares foram condenados por envolvimento em diversas chacinas ocorridas na zona norte de São Paulo no mesmo período.

Dia 16 de abril de 2014, mais 5 jovens e outros que conseguiram se salvar, sofreram atentados criminosos. Diversas pessoas afirmaram “ah, estavam no lugar e hora fazendo coisa errada…”. Por que essa é a lógica cruel que é usada nas periferias para abafar crimes?

Na noite passada, 30 de abril, esta mesma violência se repetiu. Até quando? Até quando jovens, da periferia, continuarão sendo exterminados na cidade e no estado de São Paulo? O Estado se omite diante da violência assassina de grupos de extermínio e “justiceiros”.

Todos covardes e assassinos! NÃO VAMOS NOS CALAR!

“[…]

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

[…]”

 

Pela rigorosa apuração destes crimes!

Pelo fim da cultura da violência, do medo e da omissão!

Pelo fim do extermínio de jovens!

Continuaremos lutando pela vida para todos com dignidade e liberdade.

Vida Viva!

 

Assinam esse documento:

 

Observatório de Juventude – Zona Norte

Associação Cantareira

Associação Cultural e Educacional Movimento Hip-Hop Revolucionário

Associação dos Moradores do Alto da Vila Ipiranga

Associação Franciscana de Defesa de Direitos e Formação Popular

Blog NegroBelchior

Centro Acadêmico Emílio Ribas

Comitê de Luta pelo Socialismo

Comitê pela Desmilitarização da Polícia e da Política – SP

Fórum de Hip-Hop MSP

Juventude 5 de julho

Levante Popular da Juventude

Literatura Suburbana

Rádio Comunitária Cantareira

Rede Ecumênica de Juventude

Tribunal Popular

Uneafro-Brasil

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