Filosofia Política

Letícia Sabatella em The Walking Dead

Leticia

 

Por Douglas Rodrigues Barros, do Blog O Estranhamento

 

Para Žižek: “O conceito de ideologia deve ser desvinculado da problemática “representativista”: a ideologia nada tem a ver com a “ilusão”, com uma representação equivocada e distorcida de seu conteúdo social”. Ao fazer essa afirmação, o filósofo esloveno subverte a noção, até aqui comum, de que a ideologia é um olhar turvado sobre o mundo. Não. A ideologia é a nossa própria forma de se envolver com as verdades do “inalcançável real”, de desenvolver nossas interações sociais em suas formas simbólicas.

Com essa “subversão” teórica, Žižek abriu as cortinas para um olhar renovado sobre as produções artísticas e culturais e, desse modo, nos possibilita analisar a maneira pela qual a ideologia se expressa no cinema hollywoodiano. Ora, sabemos como a ideologia cataclísmica que se apresenta no neoliberalismo nos faz interagir com nosso cotidiano. O individualismo premente pregado pela doutrina taylorista nos coloca como únicos e inteiros responsáveis pelo “sucesso” não apenas nosso, como da “companhia”. É por meio dela que nos vigiamos uns aos outros e disputamos vagas no interior do deus-mercado. Deixamos então de ser o eu-mercadoria e passamos a ser o eu-empresa.

Não há dúvidas, porém, que a sétima arte apresenta o lugar privilegiado no qual essa verdade se expressa. Em um dos últimos filmes catastróficos – 2012 – a presença da ideologia se apresenta na responsabilidade que o personagem principal do filme tem para salvar sua família. Ao descobrir a catástrofe iminente, o empregado precarizado, motorista particular de um grande magnata e mafioso russo, tenta maquinalmente encontrar uma solução.

Para quem não assistiu ao filme é preciso dizer que os grandes acionistas e milionários mundiais – ou como gostam de dizer por aí os 1% da população – já se salvaram, pois, compraram seu passaporte para a arca de Noé. Como resultado temos que o herói do filme ao tentar salvar a si mesmo e a sua família, nos demonstra como todos os lastros sociais estão perdidos e o individualismo é imperante. A ideia central se desenvolve na esfera de que é tarde demais para uma resistência popular.

A arca de salvação, dos acionistas milionários e banqueiros, sairá da China, o último lugar em que a catástrofe tocará. Ou o lugar responsável por forçar, com o excedente de capital poupado, os Estados Unidos a financiarem, por meio de um déficit crescente, sua tentativa de sair da enorme crise financeira existente desde 2008. Enquanto o herói corre em disparada para encontrar uma vaga na Arca, vemos continentes inteiros serem dissolvidos.

“hei, a minha mensagem é para você consumidor/trabalhador/capitalista; o zumbi aqui é você”.    

Nesse filme, a ideologia se revela em sua verdadeira faceta que pode ser sintetizada na famosa frase: après moi le deluge (depois de mim, o dilúvio!). Ao final se revela com clareza aterradora – os pontos fortes do cinema hollywoodiano – o que se oculta na máxima de que: sob o neoliberalismo estamos no melhor dos mundos possíveis. O mundo acaba, mas o liberalismo continua, pois todos os acionistas, banqueiros e industriais se salvaram. O mundo se torna maravilhoso, uma espécie de paraíso perdido: não há mais pobres porque estão todos mortos!

Desse modo, os filmes, principalmente apocalípticos e pós-apocalípticos atuais que tiveram grande impulso, sobretudo, depois da crise de 2008, tornaram-se para nós, o que os romances do século XIX eram para os críticos de outrora, a saber: um periscópio pelo qual é possível enxergar as reais contradições no oceano do social.

É preciso dizer, entretanto, que uma forma de expressão, como é a cinematográfica, mantém autonomia em razão de sua independência artística. A forma revela uma busca independente por uma totalidade cujo fundo advém da criação. Uma obra grandiosa revela-se principalmente pela falta de intenção de seu autor, um abandono de suas posições, inclusive políticas, para que dê espaço ao personagem ou as personagens. E aqui o conceito de ideologia de Žižek se aplica de novo: não é a realidade que nos faz entender o cinema, é o cinema que nos faz entender a realidade.

Entendido isso chegamos enfim a tópica do presente artigo, qual seja: a temática dos mortos vivos. A temática dos mortos vivos não é nova, não por acaso, um dos primeiros impulsos atuais para esse tipo de filme surgiu pouco antes da década de 1970 se aprofundando nos anos 80. Mas, conta-se que há filmes desse tipo desde os anos 1930. Há quem diga que a abordagem clássica feita por George Romero é puramente política: A Noite dos Mortos Vivos (1968), Despertar dos Mortos (1978), Dia dos Mortos (1985), etc.

O contexto era o de guerra-fria, então, os zumbis seriam os comunistas que clamavam por cérebro. Naturalmente essa abordagem, intencional por parte desse diretor, vai se revolver no seu contrário. No Despertar dos Mortos, os sobreviventes vão se esconder num shopping e para lá correm centenas de zumbis

como se estivessem numa dessas promoções do Black Friday. Pablo Polese lembra que “Há um momento no filme em que toda a confusão cessa e a ordem típica de qualquer shopping (pessoas na escada rolante ao lado direito, etc) e de qualquer linha de montagem e qualquer rotina de trabalho assume. É o Romero dizendo “hei, a minha mensagem é para você consumidor/trabalhador/capitalista; o zumbi aqui é você”.

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Uma das características evidentes aí é a contradição não diluída da morte/vida. Os mortos vivem e os vivos precisam morrer. Uma dialética irônica que indica uma posição, nesses filmes, sempre minoritária daqueles que tem espírito; vida. Os mortos-vivos, pelo contrário, são sempre numerosos e os vivos uma minoria ínfima que ainda refletem, julgam criticamente e coletivamente às saídas para manter a espécie humana viva.

A explosão de sucesso, há pouco tempo atrás, do Walking Dead não é, por isso, um mero fenômeno de consumo. Poderíamos tomar suas metáforas como algo sintomático de uma realidade fantasmagórica que invade todos os poros da vida cotidiana. Seus autores indicam: há mortos por todos os lados, a única saída é coletiva e horizontal – não podemos esquecer da tirania do tal governador.

Semana passada um vídeo de Leticia Sabatella sendo acossada por centenas de militantes de extrema-direita lembrou uma cena brilhante da primeira temporada da famosa série:

Aquela em que depois de algumas semanas em coma, o herói se levanta e vendo que não há mais ninguém no hospital sai, arruma um cavalo e ruma para a cidade. Lá chegando, ao dobrar a esquina se depara com milhares de mortos errantes que avançam babando ao seu encontro, grunhindo e gesticulando.

Movimento similar aquele que houve com a atriz. O que os adeptos da extrema-direita atual deixam claro, com isso, é que quem não se parece com eles, ou que não optam por suas escolhas devem ser aniquilados. Esses são os mortos-vivos que saem do cinema e invadem as ruas. Quem for pego de vermelho deve ser devorado. O que lembra outra famosa cena da série, cena na qual alguns amigos tiveram que passar:

Há uma cena em que um rapaz asiático – salvo engano – remexe nas tripas dilaceradas de um morto-vivo para conseguir passar imune pela turba de mortos-vivos. A metáfora é clara nesse caso: seja igual a eles, vista o verde amarelo da camisa corrupta da CBF e serás visto com indiferença.

Aqui, precisamos encontrar, como diria Žižek, a realidade do virtual. Eu poderia concluir: a realidade do virtual se encontra na paulista em alguns dias de domingo.

 

 

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