Escrita da história

Higienópolis experimentou um Rolezinho de negros em 2012

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Por Douglas Belchior

O racismo não obedece a datas festivas, não tira férias, não deixa descansar. Talvez por se tratar de um período em que “quem pode mais” usufrui de sua sorte com mais intensidade, a repressão torna-se mais efetiva contra aqueles que teimam atrapalhar o sossego das “pessoas de bem”.

As festas de fim de ano e o verão de 2014 nos veio acompanhadas da tragédia da realidade das prisões brasileiras, com o triste exemplo de Pedrinhas, no Maranhão e nos trouxe também uma outra novidade: o advento dos rolezinhos nos shoppings, promovidos pelos “vândalos” do momento: a juventude funkeira.

Tenho na memória a iniciativa de um grupo de manifestantes que no ano 2000 organizou uma ocupação em um grande shopping da zona sul carioca, que deu origem ao Documentário Hiato. Mas para quem acompanha a luta dos movimentos sociais brasileiros, ver o escândalo causado pela presença de agrupamentos de jovens negros e brancos (quase pretos de tão pobres), é impossível não se lembrar de um dos momentos mais emblemáticos da luta antirracista em São Paulo: a ocupação do Shopping Higienópolis pelo movimento negro no verão de 2012, mais precisamente no dia 11 de Fevereiro daquele ano.

Depois de uma concentração e um rápido ato em frente a Igreja no Largo de Sta. Cecília, uma multidão de maioria negra caminhou pelas ruas do bairro “higiênico”, provocando olhares, sorrisos e buzinas, ora de aprovação ora de desaprovação, o que pouco importava naquele momento.

Dentre todas as palavras de ordem e cantos entusiasmadamente proferidos pelo coro, parte do poema “Negro Homem, negra poesia”, de escritor baiano José Carlos Limeira, se transformou num mantra do movimento negro paulista:

Por menos que conte a história

Não te esqueço meu povo

Se Palmares não existe mais

Faremos Palmares de novo

O exército dos que nunca dormiram entrou, não para consumir nem saquear, mas para causar, para exibir os cabelos, as roupas, o som, em bando, falando alto, empinando o nariz, assim como os Funkeiros de agora. Embora pareça uma comparação politicamente desproporcional, o efeito e o choque com a simples presença de corpos negros em um lugar não programado ou não permitido é o mesmo!

Lojas fechavam as portas, pudicas senhoras fugiam em desabalada carreira rumo às saídas de emergência: “Chamem a polícia!” “Arrastão! Arrastão!”

Impagáveis os depoimentos registrados pela Folha de São Paulo:

Fiquei com medo que saqueassem a loja, podia ter tiros, morte. São uns vândalos, vagabundos

Achei ridículo esse negócio de racismo. Onde é que está? Veja a quantidade de seguranças e empregados negros

Qualquer semelhança com as reações de hoje aos rolezinhos do funk não é mera coincidência. A multidão “consciente” e “politizada” que ocupou o shopping Higienópolis naquela tarde chuvosa de 11 de fevereiro de 2011 é parte do mesmo corpo da multidão funkeira que hoje afronta os cara-pálidas com sua presença física, com sua roupa, com seu som. Tudo isso, intencional ou não, profundamente político e contestador por sua própria natureza.

O Contexto

 

Vivíamos um momento de unidade dos diversos grupos do movimento negro, movimentos sociais e estudantis que constituíam o Comitê Contra o Genocídio da Juventude Negra. A motivação para a mobilização se deu por conta de um contexto que na época chamei de “Avalanche racista ou racismo revelado”, em texto publicado pela Rádio Agencia NP.

A conjuntura reunia a revolta por uma série de acontecimentos seguidos: a ação truculenta da PM dirigida aos dependentes químicos na Cracolândia; expulsão de um menino etíope, filho adotivo de um casal de turistas espanhóis, de dentro do fino restaurante Nonno Paolo no bairro do paraíso em São Paulo; a prisão irregular do jovem negro e agente de saúde Michel Silveira, confundido com um assaltante; a ação truculenta de um PM contra um jovem negro dentro da USP; a revolta pela violenta reintegração de posse do Pinheirinho, em São José dos Campos; e o caso da jovem funcionária negra da escola Anhembi Morumbi que foi pressionada por sua chefe a alisar o cabelo.

Era necessária uma ação de impacto em um espaço que fosse símbolo do status quo e da hipocrisia das elites brancas – com perdão a redundância. A escolha do Shopping Higienópolis fez todo sentido afinal, trata-se de um bairro que carrega em sua história e no próprio nome a confissão do racismo brasileiro. E ainda era fresca a memória do Churrascão da Gente Diferenciada, promovido em protesto contra abaixo-assinado de 3 mil moradores de Higienópolis que pedia ao governo do Estado que não construísse ali uma estação de metrô para não atrair gente pobre – ou, como preferiram chamar, “diferenciada”.

Sobretudo era necessário que a ação se caracterizasse como um ato promovido pelos negros e com uma pauta que não tergiversasse com desculpas habituais para a explicação dos conflitos e desigualdades sociais. Cada um daqueles acontecimentos que motivaram a ação foram e são decorrências do racismo estrutural brasileiro, bem como fora registrado em nosso manifesto, escrito a tantas mãos. Vale muito a pena ler.

Neste sábado o Brasil viverá um dia de rolés em diversos Shoppings. Bom passeio pra nós!

 

Registro da concentração em frente a Igreja no Largo de Santa Cecilia – Centro – SP

Registro Histórico da Ocupação do Shopping Higienópolis

 

Chamado do ATO de 11 de Março de 2012

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