racismo

Da Aids ao Ebola: as vítimas seculares do genocídio

Por Douglas Belchior

A Aids, a Malária e a Cólera seguem matando, silenciosamente, milhares de pessoas em diversos países africanos. O Ebola, identificado em 1976 como uma doença especialmente perigosa, foi completamente ignorada pela comunidade internacional e 38 anos depois, não há tratamento ou vacina. Será a África depositaria do mal natural que a condena à tanto sofrimento ou será o racismo, pano de fundo de projetos de extermínio de povos inteiros?

O Dr. Júlio César Marques de Aquino, médico brasileiro formado em Cuba, nos ajuda na reflexão.

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Da Aids ao Ebola: as vítimas seculares do genocídio

Por Júlio César Marques de Aquino 

Na manhã daquele 1º de dezembro, ao observar o cartaz exposto na parede da unidade básica de saúde do seu município, dois pacientes dialogam sobre um assunto levantado por um deles:

– Sempre esses negros! Se não bastasse nos presentear com a AIDS, agora também o Ebola. Será que somos obrigados a padecer de tanto mal por culpa deles?

– Mas será que o problema está na África mesmo? Afinal, as informações tendem a seguir novos rumos com o passar dos anos – afirma o outro interlocutor, enquanto lê um escrito sobre a nova descoberta a respeito do vírus HIV.

– Não sei. Só sei que AIDS é coisa de gay e preto!

Surge a AIDS, na rota do Ebola

O ano é 1977. A médica e pesquisadora dinamarquesa Margrethe P. Rask morre aos 47 anos, após apresentar sintomas incoerentes com a sua idade e estado de saúde. A única informação relacionada com o caso foi uma passagem pela África para estudo do Ebola. Em sua autopsia se constata uma pneumonia causada por microorganismos infrequentes a estrutura pulmonar. Em 1981 é descrita pela primeira vez a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, ainda sem ser nomeada cientificamente. No ano seguinte, Gaetan Dugas, um comissário de bordo de origem franco-canadense é etiquetado como paciente zero, a partir de quem a doença teria cruzado o Oceano Atlântico.

A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA ou AIDS em inglês) é uma doença infecto-contagiosa causada pelo vírus HIV (Human Immunodeficiency Virus), que leva ao deterioro progressivo do sistema imune. Esta doença causa a destruição dos linfócitos T CD4, células importantes de defesa do corpo que gera como resultado, a vulnerabilidade à germes que em uma pessoa saudável receberiam resistência. Com a “abertura das portas”, o indivíduo está propenso a se infectar e falecer de doenças como pneumonia, candidíase, tuberculose, entre outras.

Nos últimos anos, com o avanço da medicina para tratamento da AIDS, surgiram os medicamentos antirretrovirais, popularmente conhecidos como coquetéis. As novas gerações têm menos conhecimentos sobre o que é e como se transmite o vírus. As escolas, que na década de 90 investiam em palestras informativas sobre a AIDS, hoje transmitem suave tons de conhecimentos para seus alunos. Recentemente novas pesquisas, como o Boletim Epidemiológico HIV-AIDS concluíram uma queda na taxa de infectados com o vírus, porém, um aumento de casos de jovens entre 15 e 24 anos.

A transmissão da doença se dá através de secreções pelo contato com mucosas ou alguma ferida pelo corpo de pessoas contaminadas com os vírus. Claro, terá que existir uma porta de entrada para este material onde é comum a passagem em relações sexuais desprotegidas por via natura e contra natura, objetos contaminados como laminas de barbear, alicates de unhas e materiais hospitalares perfurantes e cortantes não esterilizados. Outras vias de aquisição viral é a materno fetal, pelo canal do parto ou pelo ajeitamento materno. Uma vez adquirido o vírus, a sintomatologia se assemelha a um mal estar que com os dias melhora em dependência das condições imunológicas do indivíduo. Os principais sintomas são calafrios, ínguas, febre, manchas na pele (sarcoma de Kaposi) dores de cabeça, garganta e muscular.

O diagnóstico da infecção pelo HIV é feito por meio de testes, realizados a partir da coleta de uma amostra de sangue em centros de testagem e aconselhamento (CTA) ou em laboratórios particulares. O principal é o Elisa, que registra atividade imunológica após 20 dias de contágio com o vírus. Se a pessoa portadora do HIV estiver em “janela imunológica” (intervalo entre a infecção pelo vírus da AIDS e a detecção de anticorpos anti-HIV no sangue através de exames laboratoriais específicos) pode apresentar um teste negativo. Com o uso dos antirretrovirais, que são medicamentos que tem a função de impedir a multiplicação dos vírus no organismo, além de controlarem o enfraquecimento do sistema imunológico, o paciente tem a prolongação da vida em até 30 anos ou mais.

O preconceito ainda é grande. Se o contato não ocorre pelas vias aqui mencionadas, a possibilidade de contaminação é nula, portanto, o contato com objetos usados pelos pacientes soropositivos não transmite o vírus HIV, assim sendo, o abraço, o beijo e carinho não transmite a doença.

África depositária do mal

O Continente africano é vítima de um sistema escravista e colonialista que duraram séculos, e ainda hoje são oprimidos pela lógica do capital, que condena a maior parte dos países à extrema pobreza. É a exploração econômica e o estimulo externo aos conflitos locais que impede de seguir seu desenvolvimento. Tanta opressão deixa como herança um continente “rico-pobre”, possuidor de riquezas naturais invejáveis, e ao mesmo tempo, sistemas de saúde, saneamento básico e condições de vida deploráveis. São as condições sociais e de infraestrutura que ao mesmo tempo, faz surgir e tornam difícil o tratamento o e controle de doenças. E o exemplo atual dessa situação é exatamente a proliferação do Ebola. Não por acaso, República Democrática do Congo, Uganda e Sudão, países com graves conflitos internos, baixa economia e sistema de saúde precário, são os que apresentam os maiores números vítimas do Ebola.

Armas biológicas

Existem relatos de uma suposta implantação de armas biológicas secretas na década de 80 durante o aparthaid com o objetivo de desenvolver agentes biológicos e químicos que pudessem matar ou esterilizar a população negra e assassinar a inimigos políticos.  Teria sido a AIDS, um dos frutos de tais experimentos e que teria fugido do controle de seus criadores?

Pesquisas que vieram à tona no ano 2006 pelas Universidades de Alabama (EUA), Montpellier (França) e Nottingham (Reino Unido) concluíram que o vírus poderia ser oriundo de primatas. Os chipanzés poderiam ser os transmissores dos vírus para os humanos. As hipóteses mais aceitáveis são de que estes animais teriam sido cuidados para sobrevivência e de que teria sido promovido o contato direto com humanos através da prática de “arranhões”.

Fato é que o racismo como um valor presente em todo planeta, continua a gerar preconceitos em relação à África e seu povo. Comum são as generalizações a respeito da origem e proliferação de doenças a partir dos seres humanos negros. Mas são a África e os africanos os verdadeiros culpados do surgimento e transmissão de doenças tão trágicas? Ou são vítimas de um sistema explorador capaz de submeter e sacrificar povos inteiros à medida de determinados interesses?

 

 

 

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