Cotas Raciais

Cotas raciais aprovadas no Instituto de Economia da UNICAMP

Sobre o processo de COTAS no Instituto de Economia (IE) da Unicamp:

O processo de Cotas no IE começa a ganhar força ainda no primeiro semestre de 2016. O cenário de recente aprovação de Cotas no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e o debate avançado que estava ocorrendo na Faculdade de Educação (FE) foram inspirações para que pessoas conseguissem levar adiante a discussão em seus institutos, foi o caso do IE, do Instituto de Geociências, do Instituto de Artes dentre outros.

No IE, bem como nos outros espaços, foram promovidas atividades (tanto por parte do centro acadêmico, quanto da Frente Pró Cotas) com o fim de inteirar as pessoas sobre o debate de Cotas em âmbito nacional e internacional, bem como repensar as relações raciais no e a História do negro no Brasil. Estas atividades tinham como público alvo os estudantes, ainda que fossem abertos para professores. Neste primeiro momento, importante salientar, os professores estavam ausentes das discussões em curso no instituto.

Com a chegada da greve no meio do ano (onde os alunos do IE estavam bastante presentes) as discussões tomaram uma nova proporção e os professores se inseriram de diferentes formas em meio à discussão. Nesse período alguns professores se mostraram abertamente contrários à proposta (e mesmo a discussão), inclusive chegando à máxima de xingar os alunos que defendiam a proposta de macacos. Em contrapartida a discussão na Comissão de Pós Graduação (CPG), onde os alunos têm mais voz e peso, parecia evoluir, contanto inclusive com a construção de uma pré-proposta de Cotas por parte dos alunos. A proposta contava também com um levantamento do perfil racial dos alunos da pós, algo até então não levado em consideração pelas instâncias administrativas do IE. Com o fim da greve, alguns professores haviam decidido somar-se a causa e construir, em conjunto com os alunos um grupo de trabalho (GT) para levar a proposta adiante no instituto.

O GT passa então a estudar propostas de cotas para a Pós Graduação em um primeiro momento, propostas estas que vão para além da Unicamp inclusive, mas dando-se especial atenção aos editais no IFCH e o projeto que estava sendo discutido na FE – posteriormente aprovado. Alunos e professores após algumas conversas e leituras passam, através do GT e pensar um circuito de debates, com pesquisadores e militantes nas temáticas de políticas de reserva de vagas, racismo, ações afirmativas e questão indígena.

Deste circuito – bastante frutífero – destacam-se, em um primeiro momento, duas mesas: A primeira, com o título: “Herança escravista e ação social afirmativa: a experiência brasileira” contava com Luiz Felipe de Alencastro (FGV-SP) e Ana Flávia Magalhães Pinto (IFCH-Unicamp) como convidados. A segunda mesa propunha um debate sobre a “Problemática das Cotas Étnico-Raciais nas Universidades Paulistas”, tendo como convidados: Fabiana Mendes de Souza (doutora em Antropologia, IFCH-Unicamp), Angela Soligo (professora da Faculdade de Educação, Unicamp) e Ariabo Kezo (representante do Centro de Culturas Indígenas da UFSCAR).

Enquanto as primeiras atividades aconteciam (respectivamente em Agosto e Setembro) outro GT estava construindo uma série de três audiências públicas para discussão de cotas na Unicamp – uma das conquistas da greve. Com o início desta série de debates de grande porte, foi-se decidido que o IE se somaria a estas atividades em detrimento da construção de suas próprias. Ainda assim é penoso recordar que poucos são os docentes e discentes do instituto que compareceram a ao menos uma das três audiências que ocorreram em Outubro, Novembro e Dezembro.

Neste período o que se destaca é a realização da primeira semana de consciência negra da história do IE. Com duração de três dias repletos de atividades culturais, debates e palestras o evento foi sem dúvida um marco, tanto na história do instituto como na discussão sobre racismo e políticas de ações afirmativas na pós graduação da Unicamp. Também neste evento estavam presentes diversos pesquisadores e pesquisadoras, bem como militantes da área e produtores culturais periféricos.

A partir de então, com o fim do ano iminente as discussões se mantiveram bem como foi decidido que a proposta, saída da CPG iria passar pela congregação, afim de que se aprovasse o princípio de cotas para o instituto. Se o papel dos professores era importante no GT é a partir deste momento que ele ganha ainda mais relevância. Após um hiato – durante as férias letivas – a discussão volta ao IE, desta vez em torno dos professores, que se organizam para propor uma plenária aberta a todo o corpo discente a fim de discutir a política de reserva de vagas como forma de inclusão no processo seletivo da pós graduação (mestrado e doutorado).

O resultado desta plenária foi uma proposta inicial e preliminar de cotas étnico raciais de 20%, independentemente de qualquer critério de renda, tendo todos os ingressantes cotistas acesso às bolsas: uma proposta bastante interessante no que tange a vinculação das questões de acesso e permanência. Hoje, dia 10/04/17 a proposta foi levada à congregação onde o princípio de cotas foi aprovado. Agora cabe a CPG escrever o edital, onde as porcentagens e a distribuição de bolsas serão de fato repensadas, que será levado novamente à congregação para discussão e aprovação, de forma que o processo seletivo deste ano conte com cotas !!!

O processo, além de altamente informativo e importante para aqueles que fizeram parte e para o IE levantou diversas outras questões: a possibilidade (e as limitações) da cooperação entre alunos e professores em prol de causas comuns; a rigidez e opacidade dos atuais processos seletivos para a pós graduação; a importância da diversidade nos espaços de construção de conhecimento; e, sobretudo a importância das mobilizações e da luta por uma universidade verdadeiramente pública. Hoje conquistamos mais um avanço no estado de São Paulo, e na Unicamp. Esperamos que o acontecido sirva como combustível para os processos ainda em curso, tal qual ainda é a luta por acesso e permanência na graduação da USP e UNICAMP.
Seguimos em luta, COTAS JÁ! nas graduações e pós graduações do país.

Aquiles Coelho Silva, membro da Frente Pró Cotas da Unicamp

Eventos citados:
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