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“Com certeza sou mais um marginalizado”: uma conversa com o autor de Cartas estudantis

 

“As Cartas Estudantis só têm essa proximidade com a política porque suas personagens estão implicadas no mundo social, trata-se de uma estudante e um “ex-estudante”. Agora, é inegável minha aproximação com a política, sou militante da Uneafro e comunista“.

Por Thiago Colombo

Por curiosidade e buscando interpretações sobre a realidade, fui atrás de novidades e livros que estão sendo lançados na atual conjuntura. A tarefa, que pareceria fácil, tornou-se difícil quando adotei a postura de vasculhar autores que não estão no mainstream literário – se é que existe isso num país onde quase metade da população, 44%, não lê e 30% nunca comprou um livro de acordo com a Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. Independente, porém, do grande mercado editorial, eu buscava livros cujo significante traduzisse a situação periclitante vivida no país e que estivessem afastados da leitura de conjuntura e das matrizes sociologizantes e economicistas. E depois de tanto flanar indo de livraria em livraria, e de sites de editoras pequenas e crítica de livros desconhecidos, encontrei o livro Cartas Estudantis.

Li em algumas horas o pequeno livro e subitamente me veio a curiosidade de conhecer seu autor. O Google, que tudo pode e tudo vê, logo me deu algumas dicas sobre o doutorando em Filosofia pela Unifesp que avidamente escreve resenhas, artigos acadêmicos, artigos para jornais, editou e produziu um documentário, e tem já quatro livros escritos dos quais um publicado e dois a serem publicados. Trata-se de uma máquina, pensei. Provavelmente é alguém de classe média alta com bastante tempo disponível. Movido então pela curiosidade e pelo impacto da leitura, entrei em contato com aquela figura que disse, com alegria e surpresa, que eu poderia enviar as questões por e-mail. Confesso que fiquei um pouco constrangido, mas mesmo assim disse-lhe se não era possível uma conversa tête-à-tête de preferência em seu ambiente de trabalho. O autor riu e disse que se eu tivesse a disposição de me deslocar até Itaquaquecetuba não haveria problemas. Itaquaquecetuba? Novamente o Google me foi de serventia e descobri que se tratava de uma das cidades mais pobres de São Paulo e um pouco distante do Centro. Fato que fez com que minha curiosidade aumentasse.

Pois bem, no dia combinado depois de uma hora e quinze minutos eu descia na Estação Manoel Feio. O retrato, se não me excedo nas peculiaridades, é a de uma estação parada no tempo cuja acessibilidade, conforto e uso social são ali meras utopias. Aquela estação permanece inalterada desde os anos 1930, nada mudou, esqueceu-se dela e lá está impassível. Subi escadas de ferro com senhoras que se esforçavam esticando varizes esverdeadas num olhar de sofrimento. Cruzei porta giratória, que acreditava extinta, e saí de encontro a uma praça tomada por alguns vendedores ambulantes. Pelas minhas salutares características e estereótipo de Vila Madalena, fui logo altercado por um rapaz que num sorriso alegre me perguntou: “Você é o Thiago, não?”. Tratava-se do meu autor que sem deixar eu responder emendou: “Bora pro carro, minha companheira vai nos levar para – com um sorriso irônico – o meu local de trabalho”. Com algo jocoso na fala me perguntando como foi a Voyage au Centre de la Terre[1], Douglas me guiou até um Uno vermelho cujo volante estava dominado por sua companheira que abriu um sorriso e me convidou para entrar. Dali rumamos para “seu local de trabalho”, uma pequena casa numa vila composta, de um lado, por terrenos ocupados, e de outro, por terrenos comprados cuja documentação não se sabe onde está. Nos receberam no portão sua sempre bem-humorada cadela enquanto sua gata fugia desconfiada de minha presença. “Primeiro comemos” disse-me com um sorriso, “e depois você me diz o que veio fazer![2]”. Foi me servido uma lasanha de massa de pão, recheada com requeijão e cerveja. Dentro da pequena casa livros para todo lado, no sofá, na cama e na estante. Já satisfeito me fora oferecido uma cadeira na garagem, único lugar da casa onde eu poderia fumar: “Parei de fumar fazem dois anos, e sinto que o cigarro é como uma namorada antiga, às vezes da aquela saudade, às vezes sonho com ele”, me disse, o autor sentando-se a minha frente, “O problema é que a gente sabe que como a namorada antiga muda, a gente também muda, o diabo é que o cigarro permanece sempre o mesmo… é como se a antiga namorada permanecesse sempre igual! Mas deixemos essas filosofias de Quincas Borba e diga logo!”.

Fui direto ao assunto. O livro, disse eu, aborda de certa forma amores abertos numa sexualidade aberta, me é estranho porque ao ler o livro acreditei que você fosse homossexual e reparo que você e sua companheira vivem juntos. Então, qual são suas preocupações no universo da sexualidade?

O autor riu, acho que divertiu-se um pouco ao saber que minhas impressões do livro traçavam o seu próprio perfil. “Antonio Skármeta no prólogo de seu livro Não foi nada”, começou ele, “narra um curioso acontecimento quando seu livro O Carteiro e o poeta se tornou filme. Diz que chegaram centenas de jornalistas no povoado chileno, que ele morava, querendo saber onde se encontrava aquele carteiro do livro que fora tão íntimo de Pablo Neruda” deu uma risada e continuou, “o mesmo raciocínio se aplica aqui só que com uma diferença, nessa sua pergunta está oculta uma moda muito recente na esquerda. Quando as coisas se reduzem a identidades ou lutas pela afirmação de identidades, logo reduzimos a experiência narrativa a existência do autor. Imagina só se Cervantes fosse Quixote”, riu calorosamente, “Não teríamos o Dom Quixote!”.

T. Colombo – Já que iniciamos por esse caminho me pareceu que teu livro tenha preocupações políticas gravíssimas e que estão postas na ordem do dia, nesse sentido, como você elabora a aproximação da política com a literatura?

D. Barros – Isso foi uma coisa muito louca. Porque, em primeiro lugar, quanto ao aspecto da forma, não só a forma literária, mas a forma artística enquanto tal prescinde e tem autonomia em referência ao seu local de origem. Quer dizer, a forma artística, se de fato a obra é boa, tem capacidade de se comunicar com quem quer que seja, ela tem uma capacidade genérica que a torna idealmente universal. As Cartas Estudantis só têm essa proximidade com a política porque suas personagens estão implicadas no mundo social, trata-se de uma estudante e um “ex-estudante”. Agora, é inegável minha aproximação com a política, sou militante da Uneafro e comunista. Então veja só, se por um lado, eu não acho que a obra deva ser reduzida ao contexto político, com penas de se tornar panfletária e reduzir seus próprios horizontes de experimentação estética, por outro lado, acredito que uma obra tem implicação com seu ambiente social. O que quero dizer é o seguinte: a forma artística pode explicar com muita profundidade um momento histórico, mas um momento histórico não pode explicar o surgimento de uma forma literária porque ela tem autonomia em relação ao seu contexto social dialogando com uma tradição de criação, crítica e público.

 

T. Colombo – E como você definiria sua produção literária?

D. Barros – Acho que foi o velho Adorno que disse: “a definição é uma camisa de forças para a criação”, pode ser que tenha sido ele que disse…

T. Colombo – Então, com certeza você não se definiria como escritor de literatura marginal?

D. Barros – eu com certeza sou mais um marginalizado (risos), aliás num país que só no final do século XIX definiu qual era realmente sua língua, um escritor que não foi marginalizado, mesmo sendo membro das elites, é porque não escreveu. Agora, foi Férrez que pensou, articulou e desenvolveu, com ótimos frutos aliás, o conceito de literatura marginalizada periférica. Acredito que sua busca era dar voz aqueles que não sabiam como ou onde exprimi-la, o que por si só é um tremendo projeto, pois, a arte detém, mesmo sob o regime do capital, uma capacidade emancipatória fundamental. Não é em vão que ela não é ensinada nas escolas. Agora, eu mesmo apesar de ser um morador de periferia das periferias, tive a feliz contingencia de aprender literatura com dois livros canônicos. O livro de um preto que é o maior romancista da língua portuguesa de todos os tempos, Machado de Assis. E a bíblia que é o livro que, embora não lido, se encontra nas casas de toda periferia.

T. Colombo – Então sua produção não se limita ao local onde você está inserido?

D. Barros – Pense só em James Baldwin que era negro e escreveu sobre um italiano branco e homossexual… Você acha mesmo que Carolina Maria de Jesus estava realmente presa a essa nova religião, ou queria transmitir uma situação humana que implica todos nós, independente de características biológicas ou estereótipos? Definir sua criação a partir de um lugar é limitante e castrador, e infelizmente esta prática acabou se rotinizando. Abriu-se somente nichos de mercado em que os brancos burgueses piedosos e de boa consciência cedem espaços em seus ateliês para deixar, com seu característico distanciamento, uma expressão cultura se manifestar. E ainda olham para isso e dizem: “Nossa como é exótico!”

T. Colombo – Como você enxerga as formas de expressão artísticas que estão pipocando nas periferias?

D. Barros – Surgiu uma potente expressão poética no Slam (batalha de poesias realizadas em várias periferias) que acompanho e admiro porque há nele uma criação que implica uma transformação efetiva, uma suspensão dessa lógica de cada qual em seu lugar. Ou seja, a construção de um Não-lugar que reaviva o senso mais visceral de Utopia, pois utopia é exatamente esse não lugar. Vejo nesses manos e minas um novo etos revolucionário e uma construção que coloca a poesia na praça. Isso é muito sintomático porque a praça está cada vez mais retomando sua função social que é o local de debate público, criação e mudanças. É um sintoma mundial. Acho que a poesia de Sérgio Vaz e o Rap são os principais influenciadores de tudo isso. Cara tem uma pracinha aqui em Itaquá, a praça do Gonçalves, que aparece todo mês quase trinta poetas de diversas periferias de São Paulo, você sabe o que isso significa para uma cidade como Itaquá?

T. Colombo – Como esse Não-Lugar utópico se insere em sua produção literária?

D. Barros – Determinar sua criação a partir de um local ocupado na sociabilidade dominada pela mercadoria é dar um tiro nas asas da imaginação. Isso ocorre porque o exercício literário é a busca de realização do impossível, e o impossível só é possível porque se insurge contra uma ordem normativa que se desenvolve por trás de nossas costas. Veja só, esse livro que você tem aí nas suas mãos é o quarto livro que escrevo. O meu primeiro romance teve uma ambição maluca e histórica, o segundo é sobre um pastor que surta e acha que é Jesus, o terceiro é sobre um grupo de operários que é confundido com terroristas e se passa nos anos 1970. É sempre uma criação ligada a um Não-Lugar e isso não quer dizer que a obra não esteja implicada em seu momento histórico, muito pelo contrário, ela é a única força capaz de captar os elementos caóticos e segmentados de uma sociedade estranhada e articular através de um todo artístico. Sob esta luz a obra é sempre engajada. Talvez, o pensamento teórico faça isso, só que a arte consegue resolver isso com muita facilidade. Não é à toa, que Marx dizia que Balzac e Dickens eram melhores historiadores que os próprios historiadores de sua época (risos)

Cartas Estudantis

T. Colombo – Qual o significado de Cartas Estudantis em sua produção, pois me parece que você tem fôlego, e tem outro livro também seu a ser lançado né?

D. Barros – Sim. Sim. Os terroristas estão no prelo por uma editora independente bem legal, a Urutau, ganhei um concurso literário que eles haviam feito, eles têm um projeto de produção de livros legal. Já as Cartas assumem um processo de experimentação e, ao mesmo tempo, um acerto de contas com meus anos de formação que ainda está em processo (risos), talvez agora sejam meus anos de peregrinação. Mas de fato não sou um crítico recomendado para falar sobre ela. Espero que ela ganhe asas.

 

 

 

[1] Referência ao livro de Júlio Verne.

[2] Referência a Ilíada de Homero.

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