Política

Chapa com 80% de mulheres negras busca vitória inédita em DCE da UFABC

Na saída do Bandejão, integrantes da Chapa Universal se preparam para mais uma noite de aula

 

Como no cinema, candidatura denuncia a ingrata tarefa de mulheres que trabalham duro nos bastidores para alçar os homens às maiores alturas

 

Por Jorge Américo*

 

Dias desses todo mundo correu em alvoroço para assistir nos cinemas aquela história encantadora das três mulheres negras que ajudaram a colocar um homem branco na Lua. A narrativa hollywoodiana inspirada em fatos reais provocou uma bagunça emocional nas mentes e corações dos brasileiros porque é verossímil e se repete cotidianamente na vida doméstica, no trabalho, na universidade ou na militância política. Contra essa lógica, um grupo de estudantes formado por oito jovens negras e dois negros lançou uma candidatura para representar 10.809 estudantes na Universidade Federal do ABC (UFABC).

 

A chapa “Universal” tenta, pela primeira vez, assumir a direção do Diretório Central dos Estudantes (DCE). Tarefa difícil, ainda mais agora que a UFABC aparece como a 5ª melhor universidade brasileira no Índice Geral de Cursos do Ministério da Educação (MEC), tornando acirrada qualquer disputa por posições de visibilidade.

 

Aos 21 anos de idade Laurielen Rodrigues foi indicada para a presidência. A estudante de Ciências e Humanidades acredita que as chances são reais, mas demandam muito trabalho e organização. “A ideia de que até o sonho é um privilégio sempre aparece nas nossas conversas internas. Nós queremos, no mínimo, poder sonhar também. Porém, isso não anula nosso dever de apresentar uma plataforma política consistente e com propostas realizáveis”, reflete.

 

O papel do DCE é defender os interesses dos estudantes em âmbito local sem perder de vista os desafios conjunturais e a luta por uma educação pública gratuita e de qualidade. As prioridades de uma possível gestão serão a luta pela moradia estudantil e permanência na universidade e o combate à lesbofobia, homofobia, racismo e machismo. “Não estou fora dessas realidades, não as discuto com base nas constatações terceiras. Pelo contrário, sou o próprio produto dessas constatações, as vivo, as presencio e sei por onde começar a lutar e resistir”, declara Laurielen.

 

A futura bacharel em políticas públicas Diana Mendes concorre ao cargo de tesoureira. Fã de Cartola e leitora de Ângela Davis, ela se diz preocupada com os rumos da educação e defende que a representação estudantil não se limite ao espaço físico da universidade. “Devemos lutar contra o corte de recursos para o ensino superior, mas também não podemos aceitar os ataques do atual governo contra os direitos dos trabalhadores. Temos de barrar a reforma da previdência e a reforma maluca do ensino médio. Senão o resultado disso vai ser cada vez menos negros nas universidades e cada vez mais negros vivendo na pobreza”, destaca Diana.

 

Laurielen Rodrigues concorre à presidência do DCE da UFABC

 

“Figuras ocultas”

 

Fundada em 2006, a UFABC é uma das instituições federais de ensino superior que aderiram ao sistema de cotas. A ação afirmativa praticada pela universidade reserva 50% das vagas dos cursos de graduação para estudantes egressos da escola pública. Ao final do processo seletivo, aproximadamente 18% das vagas totais são ocupadas por negros e indígenas.

 

Diante da aparente diversidade, a bacharelanda em Matemática Bruna Magno acredita ser muito difícil transformar a empatia das relações cotidianas em confiança política. Moradora do bairro Cidade Ademar, na Zona Sul de São Paulo, e indicada para a vice-presidência, ela explica que o nome da chapa não poderia surgir em um contexto mais apropriado.

 

“Esse nome, “Universal”, foi inspirado em uma palestra da Rosane Borges, uma das maiores intelectuais da atualidade. Ela falava sobre representatividade e sobre essa visão eurocêntrica que não aceita que pessoas negras possam representar o universal, representar todo e qualquer ser humano”, recorda Bruna. “Essas palavras revoltam, mas também dão um grande ânimo. Afinal, como diz a Nina Simone, liberdade é não ter medo”, conclui.

 

A iniciativa de lançar uma chapa formada por pessoas negras se torna mais ousada quando 80% das vagas são ocupadas por mulheres. Os dois homens que integram o grupo, Jorge Costa e Manuel Pedro, se dizem orgulhosos. “È uma experiência nova e desafiadora ver os papéis se inverterem. Queremos dar todo o suporte e respeitar o protagonismo delas”, se compromete Jorge.

 

Não se pode deixar de, novamente, fazer analogia ao filme “Estrelas Além do Tempo” (uma péssima tradução do título original “Hidden Figures”). Mais que tentar vencer uma eleição para o DCE, essas “figuras ocultas” questionam e denunciam a ingrata tarefa de mulheres que, mundo afora, trabalham duro nos bastidores para alçar os homens às maiores alturas.

 

Perfil dos integrantes da Chapa Universal

 

Presidente

Laurielen Rodrigues – Bacharelado em Ciências e Humanidades

Vice-Presidente

Bruna Magno – Bacharelado em Matemática

Tesouraria

Andressa Romero – Bacharelado em Ciências e Humanidades

Diana Mendes – Bacharelado em Políticas Públicas

Secretaria-Geral

Gabriela Sabino – Bacharelado em Ciência e Tecnologia

Diretoria Cultural e Acadêmica

Gabriella Guinlle – Engenharia de Gestão

Diretoria de Comunicação

Ana Cristina Carvalho – Engenharia de Energia

Carolina Maria Santana – Licenciatura/Bacharelado em Ciências Biológicas

Diretoria Social:

Manoel Pedro dos Santos – Bacharelado em Ciência e Tecnologia

Secretária de Políticas Educacionais

Jorge Costa – Engenharia de Materiais e Licenciatura em Matemática

 

 

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* Jorge Américo é jornalista, poeta e educador. Editor do blog “Poemas de Gaveta” (poemasdegaveta.blogspot.com.br).

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