Filosofia Política

Abaixo a ditadura neoliberal!

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Por Douglas Rodrigues Barros

Ante o lamentável legado que a teologia neoliberal deixou espalhado pelo globo, não deveria haver dúvidas de sua ineficácia. A crescente concentração de riquezas – que atualmente beira os níveis de desigualdade do início da revolução industrial –, a permanente redução dos salários, rotatividade e precarização – não apenas do trabalho em si como dos, assim chamados, serviços prestados – deveriam por si só demonstrar que esta foi uma experiência que deu errado.

Desde meados de 2008, os teólogos do neoliberalismo espreitam ansiosos as revira voltas da bolsa e os truques matemáticos dos especialistas nos mistérios da economia financeira. Atualmente, por todos os lados, é nítida a percepção de que todas as saídas técnicas de realocar e reduzir os recursos estatais para salvar os bancos e o sistema financeiro, a custo de uma austeridade perversa paga pela população, não tem surtido o resultado esperado. Mas no Brasil tal teologia não só persiste, como vozes idólatras do deus mercado se erguem como se fossem donas de uma grande novidade.

Ignoram a bolha imobiliária que arrastou a economia mundial para o atoleiro no outono de 2008 e que até agora não se levantou. Ignoram a queda sequencial dos grandes bancos de investimento em Wall Street. Quando o Lehman Brothers ruiu sob a ficção solenemente produzida e vivida por seus investidores. Ignoram sobretudo os aspectos materialmente traumáticos da crise – como a expulsão de famílias inteiras de seus lares, o alastramento da pobreza, a forte queda no índice de desenvolvimento humano mundial, o desmonte das democracias e império das oligarquias financeiras que acabam por controlar os governos.

 

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Por isso, no Brasil a receita neoliberal é a receita do caos, da barbárie sem gestão. É a receita não apenas da manutenção do status quo, como do aprofundamento das desigualdades sociais que por aqui já são gritantes. Mas, os teólogos do mercado estão prontos a se curvarem e beijarem as mãos dos banqueiros. Todos os dias o grande jornalão estampa alegremente alguma grande e perversa saída imposta pelos bancos e seus analistas de mercado.

Defendem um sistema perverso que acumula, nas fronteiras dos países desenvolvidos, milhares de imigrantes que fogem para se livrar do caos que esse mesmo sistema fomentou em seus países. A guerra, a pilhagem de economias mais fracas, a imposição de modelos exploratórios nas costas de populações inteiras, a morte e a fome são algumas heranças dessa teologia que encontra na defesa de Mises sua mais cara hipocrisia. A redução do horizonte e o surgimento de maníacos como Trump e Bolsonaro dão indícios para onde está teologia está levando a humanidade.

Gritam aos quatro cantos: “abaixo a intervenção do Estado!”, mas são os primeiros a reivindicarem que o Estado salve as finanças por meio das manutenções de juros e injeção de investimentos em áreas que lhe são estratégicas. A estratégia é simples; a defesa de um Estado mínimo que serve para financiar o caos econômico e chamar a polícia contra os trabalhadores ou contra aqueles que reclamarem. Com isso, sabem muito bem o que querem: reduzir o Estado ao seu balcão de negócios particulares e segurança patrimonial. Não à toa nada dizem sobre o financiamento privado de campanha e manipulam, atualmente, todo o jogo político.

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Numa economia dependente, como é o caso da brasileira, fica nítido os estragos que o sonho da regulação do mercado por si mesmo causa.O fenômeno da globalização impõe um limite natural, porque geográfico, a expansão e manutenção da taxa de lucro, a tecnologia por sua vez, impõe um limite social ao trabalho como fonte de manutenção do consumo e processo de circulação de mercadorias.

À despeito de Mises, temos Ruy Mauro Marini que com clareza incomum percebeu que por aqui a superexploração do trabalho é determinante para a manutenção da taxa de lucro frente a concorrência do mercado externo. A condição desigual e dependente no interior de um mercado global gera uma desigualdade

gritante e obscura que não tem lastro, nem mesmo, nos níveis de desigualdade do início do capitalismo. Com o aprofundamento da austeridade imposta pelos ajustes, que agora alcançaram impulso incomum na gestão de Temer, o quadro patológico de nossa reconhecida desigualdade tende a desaguar num abismo de hostilidade social.

Não se pode duvidar, contudo, de que o neoliberalismo é uma força que movimentou e movimenta muitas almas na ilusão de que tudo continuará como está. E temo dizer, que muitas dessas almas acreditam-se inclusive de esquerda. A teologia neoliberal adentrou as mentes e os corações. Foi a responsável,a partir do final dos anos de 1970,por formular currículos escolares, ditar as formas de como encontrar emprego. Ganhou a universidade que inclusive funciona sob seu império – afinal o que é o currículo lattes? – e penetrou nas nossas mais íntimas relações. Usamos seus termos e jargões para expressarmos inclusive nossos sentimentos mais íntimos. Moldou nossa realidade, inclusive geográfica de acordo com o capital financeiro e a necessidade de absorção do “excesso de liquidez”.

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A crise mundial, no entanto, solapou o otimismo dos investidores, acabou com o horizonte crescente dos planejamentos familiares e dinamitou os direitos historicamente conquistados que muitos acreditavam ser sólidos nas democracias ocidentais. Mas, uma forma de vida morta mantém sua aparência por muito tempo e, assim, a teologia neoliberal se mantém com uma força em certa medida garantida pelos meios de comunicação e pela institucionalidade. Inclusive pelos Estados europeus que foram os maiores responsáveis pela sua sobrevida ao desviar dinheiros de impostos para salvar os tão “trabalhadores” banqueiros.

O horizonte de qualquer mudança profunda se apresenta bloqueado por essa teologia que ganhou as almas por meio da autoajuda. Do mesmo modo, as medidas dos especialistas têm se demonstrado falhas, levando Estados inteiros a se leiloarem a fim de arrecadarem de volta o que entregaram, de mão beijada, para a iniciativa financeira. Enquanto isso, mais e mais trabalhadores do globo são postos na fila do desemprego. Um exército que agora está se amontoando nas ruas do Brasil com sua taxa de 11% de desempregados. A economia em declínio – e rumo ao caos imposto pelo ajuste do governo interino – se vê impotente de absorver a mão de obra aprofundando a insatisfação social.

Do mesmo modo, o Estado está inteiramente imiscuído nas formas de gestão econômica ligadas ao mercado e suas formas neoliberalizantes. A própria destituição de Dilma Rousseff é embasada em segredos econômicos relacionados a lei orçamentaria da qual nenhum cidadão mediano tem acesso. Um jogo matemático misterioso e antidemocrático par excellence. Jogo que demonstra a falsa dicotomia existente entre Estado e mercado pois, ambos se demonstram interdependentes. Por isso, o neoliberalismo, não é uma teoria separada do desenvolvimento da economia dominante, mas sim o próprio desenvolvimento desta que entrou numa crise estrutural há algum tempo.

O golpe atual reforça, portanto, a posição do delírio neoliberal. A sanha inescrupulosa e insensata de tomar lugares estratégicos do pequeno e exíguo Estado social da era petista. Com a ganância clara na possibilidade de investimentos, visando margem de lucro alta pelos manipuladores do mercado financeiro. O caos já está instalado e a seguridade social ameaçada. Este é um dos maiores legados que a teologia neoliberal deposita em nossas costas. Legado perigoso que pode inclusive levar à uma desagregação social jamais vista. Por isso, abaixo a ditadura neoliberal!

 

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