Cultura

A Copa, o racismo e o vexame histórico.

 

Por Douglas Belchior

 

O maior vexame da história do Brasil foi a escravidão

Sérgio Vaz

 

A Copa do mundo acabou e pode ter deixado no imaginário popular do país do futebol marcas de devem durar muitos anos. Para além das paixões, alegrias e frustrações próprias dos resultados da competição, podemos dizer que há duas outras marcas que acompanharão as lembranças dessa Copa do mundo no Brasil: Os protestos contra a Copa e as polêmicas sobre racismo no futebol, que a antecedeu.

Muito embora as opiniões sejam bem controversas o fato é que, se é verdade que “teve Copa”, é verdade também que “teve protesto” e junto com ele, muita repressão.

Essa também foi a “Copa Contra o racismo”, ao menos no discurso do governo brasileiro e na ação corporativa da Fifa. Ao que vimos, e como era de se esperar, a ideia ficou limitada a faixas com dizeres genéricos e no máximo a discursos evasivos proferidos por capitães em alguns dos jogos. É sobre essa segunda marca que vou tratar.

Há de se lembrar o contexto em que se deu a “preocupação com o racismo” durante a Copa do Mundo, já que o Brasil – país do futebol, do samba, das “mulatas” e da democracia racial – jamais haveria de permitir que o mundo não o reconhecesse como tal:  As ofensas racistas sofridas pelo Tinga, jogador do cruzeiro,  no Peru; por Arouca jogador do Santos no interior de São Paulo; por Assis, lateral do Uberlândia em Minas; e pelo árbitro Márcio Chagas no Rio Grande do Sul, acionou o sinal de alerta e levou a presidenta Dilma a se manifestar e até convocar reunião com movimento negro – da qual participei -, para tratar do tema. O assunto ganhou ainda mais força no episódio da banana jogada em Daniel Alves e comida por ele em campo, seguida da infeliz campanha “#SomosTodosMacacos”, de Neymar e Luciano Hulk.

Mas o que ficou para além das palavras e das ações simbólicas? Sinto dizer, mas no jogo contra o racismo, o Brasil também está sendo derrotado.

Daí a importância da “Campanha de Enfrentamento ao Racismo e ao Genocídio da Juventude Negra”, promovida pelas organizações Uneafro-Brasil, Círculo Palmarino, Fórum de Juventude Negra do Espírito Santo, Rede de Jovens do Nordeste, Articulação de Juventudes Negras e Renajoc, com apoio do Fundo Brasil de Direitos Humanos.

A Campanha que tem como mote a mensagem: “Racismo Mata! Vamos combatê-lo!”, lançou em meio à Copa do Mundo um primeiro vídeo de sensibilização, além de um Hotsite onde as pessoas podem ajudar enviando mensagens aos presidentes da República, do Senado, da Câmara Federal, do STF, às Lideranças de bancadas e aos Governadores de Estado.

Vale a pena assistir e participar da campanha. Acesse: racismomata.org e participe!

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Sobre a Campanha

514 anos depois da invasão europeia, o racismo – ideia e convicção de superioridade de uma raça sobre outras –  continua a influenciar e determinar relações sociais desiguais e justificar violências dirigidas à população negra brasileira.

Sua face mais cruel se dá através do genocídio da juventude negra, termo utilizado para designar crimes que têm como objetivo a eliminação da existência física de grupos étnicos, raciais, e/ou religiosos, mas não só: Os aspectos simbólicos e da defesa da ideia  da terra como um bem coletivo, a partir dos valores de terreiros tradicionais, quilombolas e indígenas, todos, vítimas do extermínio.

Assumir, denunciar e elaborar formas de superar o racismo e suas consequências é tarefa urgente e permanente.

A juventude negra tem direito à vida! O racismo mata. Vamos combatê-lo!

 

Sobre o Genocídio da Juventude Negra

O GENOCÍDIO DA JUVENTUDE NEGRA é um termo utilizado para designar crimes que têm como objetivo a eliminação da existência física de grupos étnicos, raciais, e/ou religiosos, mas não só: Os aspectos simbólicos e da defesa da ideia  da terra como um bem coletivo, a partir dos valores de terreiros tradicionais, quilombolas e indígenas, todos, vítimas do extermínio.

No Brasil, mais da metade dos homicídios (53%) atinge pessoas jovens, sendo que, deste grupo, mais de 75% são jovens negros. Grande parte dessa violência é promovida pelo Estado brasileiro através de suas polícias. Isso somado às precárias condições de vida e à negação de direitos básicos tais como saúde, educação, segurança, moradia, transporte, acesso à universidades, à cultura e ao lazer – que atingem sobremaneira a população negra – configura na visão dos movimentos sociais e do movimento negro, um estado de genocídio contra a juventude e ao povo negro.

Ajude enviando mensagens

Mensagem aos presidentes da República, do Senado, da Câmara Federal, do STF, às Lideranças de bancadas e aos Governadores de Estado:

“Não é possível conviver com a violência civil e principalmente com a violência do Estado – através de sua política de segurança pública – dirigida especialmente à população e à juventude negra.

Vivenciamos em nossas comunidades o genocídio que se dá através de sistemáticos assassinatos da juventude, já traduzidos em números que se assemelham a até superam guerras.

Enquanto cidadã/o brasileira/o exijo que a presidência do Legislativo (Câmara e Senado Federal), do Judiciário (Superior Tribunal Federal) e do Executivo (Presidência da República), recebam oficialmente o conjunto de representantes desta Campanha de Enfrentamento ao Genocídio da Juventude Negra para tratativas relacionadas ao tema e que aja desde já na promoção de iniciativas que tenham como meta o fim do genocídio negro, entre essas, as seguintes ações imediatas:

  • Criação de Fundo para Reparação Histórica e Humanitária para descendentes de escravizados e indígenas;
  • Titulação de todos os territórios quilombolas e indígenas e retomada da reforma agrária;
  • Promoção de investigações dirigidas à atuação de milícias, grupos de extermínio e de policiais fora da lei em todo território nacional;
  • Mudança radical na política de Segurança Pública, garantido amplo debate e participação popular; Fim da Polícia Militar, dos Autos de Resistência e da Revista Vexatória;
  • Indenização de vítimas e familiares de vítimas da violência do Estado;
  • Mutirão do Judiciário para revisão de penas em todo país;
  • Transformação do Plano Juventude Viva em PROGRAMA, para que avance além de um apanhado de políticas pré-existentes, com destinação de recursos equivalentes à gravidade do problema que se dispõe a enfrentar e garantia de autonomia de ação;
  • Campanha Nacional de Mobilização pela Prática da Lei 10639 nas escolas públicas do país; Criação de instrumentos de acompanhamento e cobrança da execução da Lei ante as administrações Públicas; Ampliação para 10% do PIB para Educação já! – Ação em conjunto com movimento negro.

 

 

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